segunda-feira, 13 de agosto de 2012

ACOLHIMENTO, CANTOS, CANTINHOS: um novo olhar para organização da sala de aula



          Na medida em que ampliamos os conhecimentos sobre a rotina da classe e sobre a faixa etária, o olhar vai se apurando em relação as demandas e interesses das crianças, o que permite novas construções acerca da organização do espaço e dos cantos como importante momento do dia.

Como foi um assunto que me instigou a pesquisar mais sobre, procurei referências que pudessem me ajudar e encontrei:

·Sabores, cores, sons, aromas – A organização dos espaços na Educação Infantil da autora Maria da Graça Souza Horn
·Educação Infantil: fundamentos e métodos - capítulo XIV “Os ambientes de aprendizagem como recursos pedagógicos” - da autora Zilma Ramos de Oliveira
· Aprender e Ensinar na Educação Infantil das autoras Isabel Solé, Teresa Huguet e Eulália Bassedas.

Planejar, observar e intervir...

Diariamente, as crianças colaboram com a organização dos cantos no momento de guardar e se tornam responsáveis por essa tarefa, existindo um comprometimento.

Os cantos compõem um ritual importante de chegada à escola: trata-se de uma chegada gradativa ao ambiente escolar. As crianças podem escolher as propostas disponíveis, se aproximar dos amigos e dos não tão amigos, conversar e se divertir. Em seguida, a roda centra atenção de todos e segue uma atividade que exige ainda maior concentração e empenho. 

As crianças aguardam os cantos com ansiedade. Enquanto brincam, conversam, interagem com os amigos, contam novidades, desenham, jogam...

A partir da observação do professor, é possível perceber as preferências de cada um, a forma de se relacionar e de resolver conflitos. É possível verificar a frequência e a qualidade das intervenções, com quais crianças foram necessárias, como se dá a troca de brinquedos/jogos tanto como objeto quanto de significação,  e a circulação no espaço.

É muito importante considerar que o ato de brincar/jogar é algo muito sério para as crianças, ela dá o seu melhor participando, aprendendo, explorando e conhecendo o mundo.

HORN cita que segundo Vygotsky (1984) o ato de brincar proporciona um suporte básico para as mudanças das necessidades e da consciência. Tudo surge ao brincar, o que se constitui assim no mais alto nível de desenvolvimento pré-escolar, a atividade de brincar é considerada condutora que determina o desenvolvimento da criança. A autora ainda complementa que para Vygotsky, o papel do adulto é o parceiro mais experiente que promove, organiza e prevê situações de interação que promovem o desenvolvimento, sendo o espaço que se constitui um cenário onde tudo acontece, mais nunca é neutro. Ainda sim o papel do professor é intervir na zona de desenvolvimento proximal das crianças, provocando avanços que não aconteceriam espontaneamente.

Os cantos precisam saciar essa vontade de brincar, de falar, a ansiedade de começar o dia na escola, assim facilita os momentos como roda e atividades, porque as crianças já não estão muito eufóricas.

A organização dos cantos requer uma atenção especial. A elaboração desse momento deve ser bem pensada, porque não adianta somente organizar é preciso que o espaço permita a movimentação, a autonomia das crianças e a descentralização do adulto, o professor pode circular pela sala atendendo pequenos grupos. Além disso as propostas também são desafiadoras para quem as planeja, considerando esses critérios citados acima. 

      É preciso que tenham propostas interessantes e instigantes e que ao mesmo tempo, permitam atuações autônomas. É preciso variar, mas também considerar preferências. É preciso assegurar uma diversidade. Planejar as atividades dos cantos é uma tarefa bem mais complexa do que parece inicialmente!

HORN cita que na teoria de Piaget, ser autônomo é governar a si mesmo, tanto na esfera moral como intelectual, ser autônomo no âmbito moral significa decidir por si próprio entre o certo e o errado. Nesse entendimento, quando ameaçamos crianças com punições ou a manipulamos com subornos, reforçamos sua heteronomia, ou seja, se submeter. No âmbito intelectual, a autonomia é construída no momento em que encorajamos as crianças a pensarem de seu próprio modo, em vez de obrigá-las a darem respostas certas (KAMII, 1991).

O professor deve considerar que a forma como é organizado os cantos e a sala de aula, possibilite ou não interações, o meio social desempenha um papel fundamental na construção do conhecimento (Vygotsky), tendo a formatação da sala uma extrema importância pelo peso que esse tipo de proposta precisa ter no planejamento do professor e na rotina da educação Infantil. Imagine que há muitas escolas que apenas consideram esse momento favorável para a recepção das crianças e atendimento aos pais. Tendem a colocar qualquer brinquedo ou jogo apenas para que as crianças se entretenham enquanto as professoras cuidam da chegada.

É muito importante sabermos olhar o ambiente, pois pode acontecer de perdemos coisas ou interpretarmos de maneira errada. Dependendo de como se organiza esse espaço podem aparecer comportamentos ditos inadequados e que não esperamos das crianças. Quando alteramos a configuração as crianças dizem o que percebem podendo até mudar encaminhamentos e falas, influenciando o modo de agir.

Esse espaço deve possibilitar que as crianças interajam com um número menor de amigos, melhorando a coordenação de suas ações e a criação de novos enredos nas brincadeiras, o que aumenta a troca e o aperfeiçoamento da linguagem. Esse espaço permite o estabelecimento de outros vínculos e até de vínculos por afinidades - preferências por um tipo de proposta podem aproximar as crianças.

HORN diz também que deve haver também conexão entre desenvolvimento e a aprendizagem, entre deferentes linguagens simbólicas, entre o pensamento e a ação, entre a autonomia individual e interpessoal. O professor é responsável por organizar este ambiente e intervir quando necessário para que a aprendizagem e as relações sejam produtivas. Essa organização da sala de aula é essencial para o desenvolvimento das crianças, o ambiente torna-se um instrumento, um parceiro do professor na prática educativa, não apenas sendo desafiador, é necessário que eles interajam nesse espaço vivenciando-o intencionalmente e se descentralizando da figura do adulto, onde o controle passa a ser do ambiente.

Sendo preciso que ao planejar esse espaço se leve em conta a faixa etária para adequar o espaço e contribuir para o seu desenvolvimento. O espaço deve ser um aliado, planejado e estabelecido para facilitar encontros, trocas e interações, garantindo o bem-estar de cada criança e do grupo como um todo. A organização espacial merece tanta atenção quanto a seleção de atividades. Não basta colocar as propostas sobre a mesa, sem considerar a disposição que terão ou a possibilidade de uso de outros recursos materiais. O próprio chão pode ser um espaço bastante rico.

O professor pode propor para as crianças que planejem a organização dos cantos, compartilhando as regras de funcionamento e criando vínculos de confiança, as crianças poderão expressar suas ideias e opiniões. Os cantos também podem ser alterados de acordo com o projeto desenvolvido ou interesse das crianças. E dependendo da faixa etária, a organização pelas crianças é possível, sobretudo pela experiência vivida nas séries anteriores. 

        O canto temático também é outra forma interessante de se planejar: pode ser de artes, de jogos matemáticos, de projeto, de jogo simbólico etc. O professor pode usar desse planejamento para garantir algumas aprendizagens fora dos momentos específicos para serem trabalhados. Pode também planejá-lo junto com outra sala, assim as crianças podem transitar pelos dois espaços, ampliando suas possibilidades de interação tanto com crianças que não brinca tanto da mesma série, quanto para brincar com crianças de faixa etária diferente. O importante é que as salas sejam próximas e pode ser feito algum “caminho” no chão para demonstrar o acesso entre as salas.

HORN concorda que segundo MALAGUZZI (1999) considera que o modo como nos relacionamos com as crianças é fundamental, pois isso influencia nossas motivações e nossas aprendizagens, sendo que o ambiente deve ser preparado de forma a interligar o cognitivo ao relacionamento e a afetividade.

Como as crianças estão num mesmo ambiente, deve-se sempre planejar o que estimule a interação para que ela assuma diferentes papéis, aprendendo a se conhecer melhor, tornando-se um ambiente acolhedor convidativo, podendo utilizar os cantos de uma forma integrada. O professor tem que saber que tipo de desafio cada canto propõe a criança. E também por que razão considera importante aquele tipo de proposta naquele momento do ano e para aquele grupo de alunos.

Toda essa organização facilita também que o professor observe as ações das crianças sem ser o centro da prática pedagógica, mas isso não quer dizer que ele não continue atuando, depende da relação que se da entre controle e emancipação.

Segundo HORN a metodologia Montessoriana, dá um destaque especial para o equipamento, os materiais e o mobiliário, tudo é adequado ao tamanho das crianças, existindo harmonia, colorido, valoriza a arte e a estética, fazendo com que o ambiente seja convidativo e as crianças não necessitem do adulto para tudo, podendo ser mais autônomas. Porém, o foco deles está na relação com os materiais, enquanto recursos para a aprendizagem. Talvez a interação entre crianças tenha menos espaço nessa linha.

Vejo a importância desses planejamentos dos cantos, é necessário que exista algo educativo, de socialização e de aprendizagem, suprindo as necessidades das crianças.

É muito mais enriquecedor oferecer qualidade de materiais do que quantidade ou semelhanças, cada objeto posto no espaço deve conter por si próprio um potencial de aprendizagem único e diferente dos outros. Os materiais que permitem múltiplos usos oportunizam uma interação mais prolongada.

É relevante considerar que esse planejamento deve ser flexível a alguns pedidos dos pequenos, por exemplo, se um aluno pede para desenhar sentada ou deitada no chão e a opção se mostra possível porque não?! Neste caso as crianças são vistas não apenas como quem usufrui do espaço, mas como quem pode também contribuir para sua organização em uma atividade.

A autora ainda diz que MALLAGUZZI (1999) afirma que os relacionamentos e a aprendizagem coincidem em processo ativo de educação por meio de expectativas e habilidades das crianças, da competência profissional dos adultos e do próprio processo educacional.

Uma concepção pedagógica revela-se ao ver como a professora planeja suas aulas, no seu cotidiano, na organização da sala de aula, na forma como lida com as crianças e nas escolhas teóricas que faz.