domingo, 5 de novembro de 2017

Um olhar sensível na prática com a primeiríssima infância: diálogos com a abordagem PIKLER.

Dr. Emmi Pikler
(1902-1984)

Pikler é o sobrenome da pediatra austríaca-húngara que criou a abordagem que também é conhecida pelo nome Lóczy, em Budapeste, devido ao nome da rua do Instituto onde aconteceu todo o trabalho reconhecido mundialmente.




O contexto histórico dessa abordagem é após Segunda Guerra Mundial, assim como outras abordagens e pedagogias surgiram na Europa. Em meio a devastação geral, a necessidade de se reerguer, se unir e criar novas perspectivas de sobrevivência e esperança para um futuro melhor. 

Confira esse documentário em espanhol (há imagens da abordagem, da guerra, dos orfanatos):




Nessa época Spitz, um psiquiatra com formação em psicanálise, criou o conceito hospitalismo (por volta de 1945), isto é, a falta de afeto e vínculo pode levar os bebês a morte, não basta apenas suprir as necessidades físicas de alimentação e higiene (pense nos orfanatos, a quantidade de crianças sem família nessa época), os bebês precisam de afeto e de interação; da relação dedicada com um adulto referência, seja a mãe ou outra pessoa que ocupe a função materna. Nesse mesmo contexto, em 1946, a UNICEF foi criada para cuidar das crianças vitimadas da guerra.

A abordagem da Dr. Emmi Pikler teve caminhos muito interessantes: de observações em um hospital e as primeiras ideias sobre o que uma criança pequena necessita para ter um desenvolvimento saudável, depois comprovar essa teoria passo a passo colocando em prática em sua própria família, para orientar pais como pediatra familiar.  Logo após, foi convidada a assumir um orfanato, atuou com formação de equipe e despertou o interesse das creches e outras áreas da saúde.

A riqueza está em oferecer o que há de mais humano: olhar, tocar, falar. Em considerar a criança pequena como uma pessoa, uma concepção que parece óbvia, mas que para o trabalho com bebês e crianças pequenas acontecia pouco. 

Um aspecto importante é que desde o início do seu trabalho a Dr. Pikler registrava e documentava suas observações. Podemos conferir toda a sua pesquisa e documentação de anos, nos seus livros, com fotos e desenhos, além dos vídeos.






Anna Tardos, psicóloga e diretora do Instituto. Filha e sucessora da Dr. Pikler.







Existem diversas redes espalhadas pelo mundo que se dedicam em oferecer formação e divulgar a abordagem Pikler, além de contribuir com quem busca informação. Alguns países que consegui pesquisar: Itália, Suíça, Holanda, Áustria, Reino Unido, Espanha, França, Alemanha, Nova Zelândia, Canadá, Estados Unidos, Peru, Equador, Chile, Argentina e Brasil.

O google é uma ferramenta incrível para encontrar vídeos, textos, fotos, reportagens, mas a maior parte do material está em outra língua. Temos pouco material traduzido para o português.




As minhas referências principais são as duas redes que já participei de cursos e o Instituto Pikler na Hungria:
  • Rede Pikler Nuestra América, formação em Buenos Aires;
  • Associação Pikler-Loczy na França, formação em Paris;
Além do meu primeiro contato com a abordagem que foi em 2013, pela OMEP, no 10o Encontro Internacional VID sobre a abordagem Pikler com a Anna Tardos. Atualmente, também estudo psicanálise, pois existe um bom diálogo com os princípios.

Com o foco no desenvolvimento sadio da primeiríssima infância (0 a 3 anos), essa forma de atuar com as crianças nos inspira e é possível abrir diálogos reflexivos com diferentes enfoques. Considerando a importância dos cuidados corporais, a motricidade livre, o vínculo com o adulto, as iniciativas da criança, a interação entre os bebês, a rotina, o espaço, os materiais para brincar, a observação e o registro. Promovendo um olhar mais sensível em relação a maneira como vemos e atuamos com os bebês e as crianças pequenas, são muitas as oportunidades de repensarmos a nossa prática. São nos detalhes como, por exemplo, a forma de pegar a criança, trocar, alimentar, interagir e se comunicar que se faz a diferença para construção de um indivíduo seguro e confiante.

Não tem como não considerar a nossa cultura e implantar uma receita, seria um erro, o que colocamos em prática são recortes possíveis, algumas mudanças. A abordagem é complexa e precisa de muito estudo, o trabalho educativo pode tê-la como referência.


No documento curricular do Peru já há citação da abordagem como referência www.repositorio.minedu.gob.pe, a pedagogia Waldorf também se inspira e nos Estados Unidos a abordagem RIE (Resources for infant educarers), criada por Magda Gerber tem um diálogo bem interessante.
www.rie.org/educaring/ries-basic-principles/


Em resumo, os princípios fundamentais dessa abordagem são:

  1. Valorizar as iniciativas próprias da criança (autonomia);
  2. Relação privilegiada entre o adulto e o bebê (criança pequena), principalmente nos momentos de cuidados corporais;
  3. Movimento livre, ambiente favorável, exploração e brincadeira espontânea.

Porém a partir desses princípios, conceitos menores, mas não menos importantes nos orientam.

É uma abordagem que quebra paradigmas, nem todas as pessoas se afeiçoam, se interessam ou concordam com a concepção, mas o que vale é conhecer, estudar, refletir e verificar se de fato vai ao encontro com o que você acredita.

Acredito que a abordagem contribui muito para a formação dos educadores:
  • o cuidado que educa fica muito claro, 
  • o papel do educador como sensível, observador, reflexivo, que documenta, cria mais condições favoráveis e faz menos intervenções diretas;
  • conhecimento específicos e das capacidades dos bebês e crianças pequenas
  • educador tranquilo, paciente, afetuoso, compreensivo, interessado pelos detalhes do cotidiano;
  • consciência de que atuar com essa faixa etária é uma grande responsabilidade;
  • é uma profissão restrita, não é para qualquer pessoa;
  • necessita de estudo e reflexão contínua,
  • engloba temas das diversas áreas como psicologia, psicanálise, pedagogia, psicomotricidade, pediatria, psiquiatria, etc;
  • considera a necessidade de um sistema triangular de apoio e suporte ao trabalho desenvolvido (o educador também precisa ser cuidado);
  • e almeja a valorização do profissional (importância e papel primordial para o desenvolvimento da criança);
  • Dentre outros aspectos...

Fique de olho na página do www.facebook.com/culturainfantilearte , pois divulgo informações sobre cursos, em SP e em outras cidades e estados, nesse perfil.