quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

REPETIÇÃO DE SIGNOS: uma experiência com crianças de 4 anos*

*Em 2012 esse trabalho foi finalista do XIII Prêmio Arte na Escola Cidadã e apresentado em 2014 no 7º Encuentro Internacional de Educación Infantil OMEP Argentina - Arte en la Primera Infancia.




Esse projeto teve a duração de 2 meses. As produções foram expostas em uma mostra de trabalhos de artes da escola chamada ”Bienal”, onde toda comunidade escolar foi convidada a apreciar todos os trabalhos realizados por todas as séries.

A proposta partiu de uma observação dos desenhos das crianças desde grupo. Do quanto já tinham começado a figurar, a se interessar mais pela representação da realidade e o quanto alguns estavam se arriscando a produzir novos traços que representassem algo que os demais reconhecessem, buscando se aproximar da figuração. Sendo assim me pareceu um bom momento, pois para os que se sentiam inseguros, poderiam criar bolinhas, linhas, formas etc.

Este projeto teve o objetivo de estimular as crianças a utilizarem processos de construção de desenhos de uma forma diferente - eles gostam bastante de repetição de signos e cópias de desenhos - e também oferecer um suporte diferente que traga uma nova experimentação, estão acostumados a desenhar frequentemente em suportes planos (bidimensional) e nesta atividade precisarão desenvolver estratégias para desenhar em um cilindro (tridimensional).

A ideia partiu com o grupo em que eu fui professora titular, mas como havia outra sala da mesma série em período diferente, eu, a outra professora do período da manhã, a professora de artes do Fundamentar I e a coordenadora, nos juntamos e pensamos na outra sala produzir a repetição em um tecido para que fosse a porta da casinha já que meus alunos fariam as paredes. Então esse outro grupo seguiu os mesmos passos, utilizando apenas o suporte diferenciado. O desafio deste era controlar a orientação de seus traços, já que era um tecido grande que seria utilizado por todos colegas da sala.


O tema foi escolhido pelas crianças, propus apenas a ideia da repetição de signos e cada um pode criar seu padrão, considerando o que era fácil para cada um desenhar. As crianças observaram várias repetições para que pudessem criar as suas: estampas de roupas, repetições em tapetes, azulejos, imagens da natureza, padrões indígenas e obras de arte.





Contei aos pequenos que precisariam se empenhar nestes desenhos para que cada um ficasse o mais parecido do outro, então era preciso considerar uma representação simples, sem muitos detalhes para não ser cansativo. A expectativa era que eles atingissem este objetivo.

Os conteúdos e objetivos de cada etapa:




Levantamento de conhecimentos prévios - Conversa inicial sobre estampas de roupas: Como são? O que elas têm em comum? Quais tipos de estampas estão observando? (Flores, listras, nuvens etc) Que as crianças percebam as repetições e as variações, por exemplo, a repetição é de coelho, mas tem coelho cinza e coelho listrado - mais de um tipo do mesmo signo.



Apresentar os suportes que usaremos para esta atividade – cilindros de papelão que são usados nas fábricas de roupas com tecidos enrolados neles (solicitei que uma fábrica separasse alguns para mim e cortei-os ao meio). Contar que cada um vai inventar uma estampa (uma repetição de desenho) para aplicar nos cilindros, que estarão fixos em quadrados de argila, para que depois parem em pé.

Apreciar imagens. Identificar as repetições nas imagens. Questioná-los sobre o que estão observando: do que são as imagens? O que elas têm em comum?.


Edney Antunes 











Desenvolver qual será a sua repetição: Criatividade e expressão.






Escolher qual a cor de fundo vai pintar o cilindro (tecido) e fazê-lo.







Aplicar a repetição ao cilindro (tecido) e o professor verifica as dificuldades, se estão conseguindo cumprir a repetição.




Para elaborar este projeto contei com Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, um livro chamado Grafismo Indígena do organizador Lux Vidal da Editora Edusp, somado a minha experiência e criatividade na área artística, a ideia partiu também de uma experimentação pessoal como artista, onde eu me empenhava em pensar repetições de signos.

Os materiais utilizados foram: cilindros de papelão, argila, tinta guache, caneta hidrocor e caneta retroprojetor. Utilizamos a sala de aula em todas as etapas, é organizada com 4 mesas e 4 cadeiras em cada mesa e um espaço para realizarmos as rodas. Os materiais de artes ficam em uma estante específica acessível a eles.

A avaliação deste projeto se deu por meio de observação das etapas passo a passo e as intervenções realizadas, por exemplo, as crianças foram orientadas a não exagerar nos detalhes, a encontrar estratégias para facilitar a produção, o cuidado com os materiais, a concentração para não “errar” (Pois eles ficam muito chateados quando isso acontece), o capricho pelo que se faz, o incentivo, o elogio, o apoio etc.

A pesquisa foi importante para que o projeto pudesse acontecer. As roupas - para observação das estampas - foram possíveis de se trazer à escola, mas as demais imagens busquei na internet, as crianças participaram de outra maneira desta pesquisa: elas ficaram atentas as repetições e combinamos que me chamariam caso identificassem alguma na escola. E várias vezes isso aconteceu ao observarem ilustrações de livros, paredes, chão, grades, janelas e até a tartaruga que mora no pátio! Além de lembrarem-se de roupas que tem em casa, como um menino que comentou na primeira roda de conversa e apreciação de estampas “Eu tenho uma camiseta de futebol que tem uma listra vermelha e outra azul, uma vermelha e outra azul,...!”.

O projeto desenvolvido ampliou o repertório artístico e cultural dos alunos na medida em que puderam observar que a inspiração artística pode surgir de diferentes fontes inclusive da natureza e de observações do cotidiano, conhecer artistas contemporâneos, identificar que não necessariamente precisa ser um desenho figurativo, que há muitas formas de combinar linhas, por exemplo, e criar novas tramas, e assim essa experiência permitiu que as crianças acessassem este conteúdo, fizessem relações e criassem suas próprias representações.