domingo, 5 de novembro de 2017

Um olhar sensível na prática com a primeiríssima infância: diálogos com a abordagem PIKLER.

Dr. Emmi Pikler
(1902-1984)

Pikler é o sobrenome da pediatra austríaca-húngara que criou a abordagem que também é conhecida pelo nome Lóczy, em Budapeste, devido ao nome da rua do Instituto onde aconteceu todo o trabalho reconhecido mundialmente.




O contexto histórico dessa abordagem é após Segunda Guerra Mundial, assim como outras abordagens e pedagogias surgiram na Europa. Em meio a devastação geral, a necessidade de se reerguer, se unir e criar novas perspectivas de sobrevivência e esperança em um futuro melhor. 

Confira esse documentário em espanhol (há imagens da abordagem, da guerra, dos orfanatos):




Nessa época Spitz, um psiquiatra com formação em psicanálise, criou o conceito hospitalismo (por volta de 1945), isto é, a falta de afeto e vínculo pode levar os bebês a morte, não basta apenas suprir as necessidades físicas de alimentação e higiene (pense nos orfanatos, a quantidade de crianças sem família nessa época), os bebês precisam de afeto e de interação; da relação dedicada com um adulto referência, seja a mãe ou outra pessoa que ocupe a função materna. Nesse mesmo contexto, em 1946, a UNICEF foi criada para cuidar das crianças vitimadas da guerra.

A abordagem da Dr. Emmi Pikler teve caminhos muito interessantes: de observações em um hospital às primeiras ideias sobre o que uma criança pequena necessita para ter um desenvolvimento saudável, depois comprovar essa teoria passo a passo colocando em prática em sua própria família, para orientar pais como pediatra familiar.  Logo após, foi convidada a assumir um orfanato, atuou com formação de equipe e despertou o interesse das creches e outras áreas da saúde.

A riqueza está em oferecer o que há de mais humano: olhar, tocar, falar. Em considerar a criança pequena como uma pessoa, uma concepção que parece óbvia, mas que para o trabalho com bebês e crianças pequenas acontecia pouco. 

Um aspecto importante é que desde o início do seu trabalho a Dr. Pikler registrava e documentava suas observações. Podemos conferir toda a sua pesquisa e documentação de anos, nos seus livros, com fotos e desenhos, além dos vídeos.






Anna Tardos, psicóloga e diretora do Instituto. Filha e sucessora da Dr. Pikler.







Existem diversas redes espalhadas pelo mundo que se dedicam em oferecer formação e divulgar a abordagem Pikler, além de contribuir com quem busca informação. Alguns países que consegui pesquisar: Itália, Suíça, Holanda, Áustria, Reino Unido, Espanha, França, Alemanha, Nova Zelândia, Canadá, Estados Unidos, Peru, Equador, Chile, Argentina e Brasil.

O google é uma ferramenta incrível para encontrar vídeos, textos, fotos, reportagens, mas a maior parte do material está em outra língua. Temos pouco material traduzido para o português.




As minhas referências principais são as duas redes que já participei de cursos e o Instituto Pikler na Hungria:
  • Rede Pikler Nuestra América, formação em Buenos Aires;
  • Associação Pikler-Loczy na França, formação em Paris;
Além do meu primeiro contato com a abordagem que foi em 2013, pela OMEP, no 10o Encontro Internacional VID sobre a abordagem Pikler com a Anna Tardos. Atualmente, também estudo psicanálise, pois existe um bom diálogo com os princípios.

Com o foco no desenvolvimento sadio da primeiríssima infância (0 a 3 anos), essa forma de atuar com as crianças nos inspira e é possível abrir diálogos reflexivos com diferentes enfoques. Considerando a importância dos cuidados corporais, a motricidade livre, o vínculo com o adulto, as iniciativas da criança, a interação entre os bebês, a rotina, o espaço, os materiais para brincar, a observação e o registro. Promovendo um olhar mais sensível em relação a maneira como vemos e atuamos com os bebês e as crianças pequenas, são muitas as oportunidades de repensarmos a nossa prática. São nos detalhes como, por exemplo, a forma de pegar a criança, trocar, alimentar, interagir e se comunicar que se faz a diferença para construção de um indivíduo seguro e confiante.

Não tem como não considerar a nossa cultura e implantar uma receita, seria um erro, o que colocamos em prática são recortes possíveis, algumas mudanças. A abordagem é complexa e precisa de muito estudo, o trabalho educativo pode tê-la como referência.


No documento curricular do Peru já há citação da abordagem como referência www.repositorio.minedu.gob.pe, a pedagogia Waldorf também se inspira e nos estados unidos a abordagem RIE (Resources for infant educarers), criada por Magda Gerber tem um diálogo bem interessante.
www.rie.org/educaring/ries-basic-principles/


Em resumo, os princípios fundamentais dessa abordagem são:

  1. Valorizar as iniciativas próprias da criança (autonomia);
  2. Relação privilegiada entre o adulto e o bebê (criança pequena), principalmente nos momentos de cuidados corporais;
  3. Movimento livre, ambiente favorável, exploração e brincadeira espontânea.

Porém a partir desses princípios, conceitos menores, mas não menos importantes nos orientam.

É uma abordagem que quebra paradigmas, nem todas as pessoas se afeiçoam, se interessam ou concordam com a concepção, mas o que vale é conhecer, estudar, refletir e verificar se de fato vai ao encontro com o que você acredita.

Acredito que a abordagem contribui muito para a formação dos educadores:
  • o cuidado que educa fica muito claro, 
  • o papel do educador como sensível, observador, reflexivo, que documenta, cria mais condições favoráveis e faz menos intervenções diretas;
  • conhecimento específicos e das capacidades dos bebês e crianças pequenas
  • educador tranquilo, paciente, afetuoso, compreensivo, interessado pelos detalhes do cotidiano;
  • consciência de que atuar com essa faixa etária é uma grande responsabilidade;
  • é uma profissão restrita, não é para qualquer pessoa;
  • necessita de estudo e reflexão contínua,
  • engloba temas das diversas áreas como psicologia, psicanálise, pedagogia, psicomotricidade, pediatria, psiquiatria, etc;
  • considera a necessidade de um sistema triangular de apoio e suporte ao trabalho desenvolvido (o educador também precisa ser cuidado);
  • e almeja a valorização do profissional (importância e papel primordial para o desenvolvimento da criança);
  • Dentre outros aspectos...

Fique de olho na página do www.facebook.com/culturainfantilearte , pois divulgo formações sobre cursos, em SP e em outras cidades e estados, nesse perfil.


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

LITERATURA INFANTIL: indicações Ciranda Cultural

*Todos os livros são com letra maiúscula, ótimos para pequenos leitores em fase de alfabetização.

  Texto: Melanie Joyce
Ilustração: Kirsten Collier


Quando se pensa em uma história de raposa e galinha, já é possível prever o que acontece. E foi assim que me surpreendi!
Algumas galinhas estão sumindo do galinheiro e a raposa tem fama de comer galinhas, mas ela conta ao fazendeiro que é vegetariana e tenta descobrir o que está acontecendo para deixar de ter essa fama.
Quando a raposa tenta salvar algumas galinhas para o fazendeiro, ele acorda e pega a raposa no flagra. O que será que vai acontecer?


Bom desfecho!



Texto e Ilustração: Alison Brown


Edgar era uma menino sonhador, queria desvendar o mundo e viver aventuras incríveis. Certo dia, encontrou um parceiro que aceitou acompanhá-lo, era um cão.



Eles brincaram bastante e viveram momentos inesquecíveis, mas quando o levou para casa, mas a mãe não quis ficar com o cãozinho, não havia espaço na casa e o seu parceiro teve que ir embora. Porém, no outro dia ele voltou e assim várias vezes ele ia para algum lugar e voltava. Até que teve uma grande ideia e solucionou o problema da falta de espaço para ele naquela casa. Qual será a solução do cãozinho? Será que deu certo?


 Texto e Ilustração: Kristyna Litten 


Pipa é uma galinha diferenciada, todo mundo fala sobre ela. Isso porque a galinha sismou que queria enxergar no escuro, curiosa e cheia de ideias não desistiu.

Muito interessada no assunto, pesquisou e encontrou algo que poderia lhe ajudar. Encontrou um livro antigo sobre histórias de galinhas e descobriu um alimento capaz de fazê-la enxergar no escuro. 

Ninguém acreditava nessa insistência dela, afinal galinhas não enxergam no escuro e pronto! O que será que aconteceu quando todas as galinhas se reuniram para comer um banquete e anoiteceu?

 Texto: Norbert Landa
Ilustração: Tim Warnes


Essa é uma história sobre amizade. 

O urso e o coelho faziam tudo juntos, inclusive moravam na mesma casa. Gostavam da companhia um do outro. Até que encontraram uma coisa brilhante na frente de casa e brigaram por causa do que cada um achava daquilo. 

Voltaram para casa e bravos tentaram dormir, mas não conseguiram, então ao mesmo tempo tiveram uma ideia: falar com o amigo.

Eles se encontraram na frente de casa e resolveram o problema. Como será que entraram em um acordo?

Achei interessante para começar uma conversa com as crianças sobre pontos de vista, sobre cada um vê de uma forma.

domingo, 15 de outubro de 2017

INDICAÇÃO DE LEITURA: especial mês dos professores



Autora: Maria da Graça Souza Horn
Editora: Penso

Conheci o trabalho dessa autora por meio do livro "Sabores, Cores, Sons e Aromas - A organização de espaços na educação infantil" da editora Artmed. Na época me ajudou muito a repensar os espaços que oferecia as crianças. 

Dessa vez, Horn volta com esse tema, mas focando no brincar e na interação entre as crianças, considerando as orientações  das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil em relação  a organização dos espaços e dos materiais, ao protagonismo e aos espaços internos e externos das instituições. O trabalho com a autonomia, o mobiliário específico para a faixa etária (0 a 5) e contato com a natureza fazem parte dessa proposta.

Um livro essencial, que incentiva a transformação, desperta a reflexão, sugere melhorias e oferece uma base teórica consistente que pode nortear as escolhas pedagógicas. Se as crianças aprendem o tempo todo com tudo que está ao seu redor, o espaço tem um papel fundamental como terceiro educador.

É uma leitura gostosa que flui sem a gente perceber. As imagens ilustrativas complementam o texto e auxiliam o melhor entendimento dos materiais, equipamentos e móveis.

Com certeza depois dessa leitura você vai olhar diferente para os espaços da escola e se questionar, não será mais o mesmo!

Boas descobertas!


Autora: Stela Barbieri
Editora: Blucher

Esse livro faz parte de uma coleção chamada InterAções. Gosto bastante da forma com a autora expande nosso olhar, para além das práticas na escola, para a vida. Esse título fez parte da bibliografia da minha pesquisa de monografia sobre arte e primeiríssima infância.

A obra nos questiona, faz retomarmos memórias, reativarmos nossa sensibilidade, refletirmos sobre como vemos a arte na infância, como nos relacionamos com a arte nas nossas vidas, como é a nossa prática na escola, etc. Se a arte está na vida, está em tudo, ficam algumas perguntas:

Será que a arte contemporânea pode ajudar a entender? 
Qual é o papel do professor? 
O que deve ser contemplado no ensino da arte? 
O que é experiência? 
O que é estética? 
Como acontece o processo de criação? 
As crianças se relacionam com os espaços, os materiais, a natureza, o corpo, como tudo isso se relaciona com a arte?

Achei a leitura muito enriquecedora, abre janelas, ilumina o olhar, confirma concepções e nos faz avaliarmos a própria prática: para onde queremos ir e como podemos. As páginas são cercadas de relatos, citações, referências, imagens, conceitos e provocações.

Boa transformação!


Organizadora: Judit Falk
Editora: Omnisciência

Fiquei muito feliz quando a tradução desse título ficou pronta. A Rede Pikler Brasil se dedicou muito para essa concretização; fiz parte da Rede, mas não consegui acompanhar o grupo. É uma alegria ter essa contribuição!

Meu primeiro contato com a abordagem foi aqui em São Paulo, depois em Paris e em Buenos Aires. Atualmente realizo formação de professores em diálogo com os princípios piklerianos e sempre indico essa leitura para o grupo de participantes.

A abordagem Pikler é muito singular e focada no desenvolvimento infantil de 0 a 3 anos. Como foi criada em outro contexto, é importante considerar a cultura de cada país. É uma inspiração que nos faz olhar para os bebês e crianças pequenas de forma mais sensível, são princípios que podem nortear a nossa prática até o termino da educação infantil.

O livro conta com seis temas esclarecedores sobre como é o trabalho nessa abordagem em relação as atividades dirigidas, a autonomia e/ou a dependência, o desenvolvimento lento ou diferente, os cuidados corporais e a relação adulto/criança. 

Temos pouco material traduzido para o Português, então aproveitem a leitura.

Bom diálogo! 


Autora: Jussara Hoffmann
Editora: Mediação

Esse tema sempre aparece durante os processos de formação de professores. Muitas das reclamações são porque o docente acaba se sentindo preso em olhar o que a criança sabe ou não sabe, consegue ou não consegue, pois mesmo com as observações diárias algumas aprendizagens não são contempladas, outro aspecto é a produção de relatórios muito extensos. Cada escola avalia à sua maneira, com diferentes técnicas e instrumentos avaliativos. Então, diante desse fato:

O que é avaliar? Por que avaliar?
O que envolve o processo avaliativo?
O que é uma concepção mediadora de avaliação?
Qual é o papel do professor?
Como desenvolver um olhar mais sensível e reflexivo sobre a ação pedagógica?
Qual é o melhor instrumento de avaliação?

São essas e outras questões como observação, registro, mediação, diálogo, reflexão, planejamento e currículo, dentre  ações subjacentes que estão articuladas nesse livro como orientação e precisamos estudar para que a avaliação não seja um processo descolado da prática cotidiana e se torne meramente uma tarefa a cumprir.

A avaliação é fundamental para o desenvolvimento de cada criança e para o professor repensar sua prática, promovendo a formação do mesmo.

Bom encontro!

Organizadoras: Marcia Aparecida Gobbi e Maria Letícia Barros Pedroso Nascimento
Editora: Junqueira & Marin


Cultura, diversidade e educação são temas que me encantam! Precisam de muito estudo e reflexão, de serem incluídos urgentemente na prática pedagógica. 

Nessa obra podemos conhecer melhor a perspectiva de um campo chamado Estudos Sociais da Infância. Essa seleção de textos é fruto de pesquisas e ensaios apresentados em um seminário, que revelam práticas e reflexões nos convidando a um olhar mais apurado em relação a essa temática. Está dividido em três partes: infância, diversidade cultural e formação docente.

A escola é um espaço privilegiado para tratar desses assuntos, as crianças estão em relação com o outro e suas diferenças o tempo todo. Aproveitar o conhecimento e a cultura das famílias e dos funcionários, pode enriquecer muito o trabalho. É importante envolver a todos.

A sociedade tem discutido e levantado muitas questões sobre racismo, preconceito, feminismo, machismo, gênero, sexualidade, religião, formação familiar, arte e muitos outros aspectos, que estão sendo tratados com violência, discriminação e censura. A  formação docente gera a evolução das competências do professor, mas no caso dessas temáticas o autoconhecimento se faz igualmente necessário. Ser capaz de lidar com essas situações na escola e garantir ser um adulto de referência ética na vida dessas crianças, não é uma tarefa simples.

Boa reflexão!

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

O BRINCAR LIVRE NA ESCOLA: um desafio no ensino fundamental I.




Como a gente olha para o brincar? Como a gente entende?
O que o brincar livre nos diz sobre as potências infantis?
Como deixar e observar essa relação espontânea do brincar?
Por que brincar livre?
Como é esse corpo brincando? 



A intenção não é ter respostas prontas, mas despertar uma reflexão de acordo com minhas concepções e experiências. Também contei com o apoio dos vídeos da série "Diálogos do Brincar" do Instituto Alana.

Diariamente observo as brincadeiras que acontecem nos momentos de espontaneidade, principalmente no parque. Tenho paixão pelo que acontece nesse espaço!

Trabalho como professora do período complementar no  ensino fundamental I, as crianças chegam com 5/6 anos e permanecem até os 10/11 anos, com agrupamento multietário. E foi a partir dessa experiência que percebi o quanto o jogo simbólico está presente nessa faixa etária, mas nem as próprias crianças se permitem ser crianças, é um trabalho de bastante incentivo para se permitirem e aprenderem a lidar cada vez mais com as escolhas, a autonomia e as relações.

Percebi que basta oferecer-lhes tempo, espaço e materiais potentes, para se mostrarem criativos, enérgicos e cheias imaginação. Viva a potencia infantil!

O brincar é um direito que deve ser garantido:

Brincar é um direito de todas as crianças porque é vital para o seu desenvolvimento e bem estar. Isto é reconhecido na Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança (artigo 31) e no Estatuto da Criança e do Adolescente do Brasil (artigos 4o e 16), como o direito das crianças ao brincar, recreação, lazer, arte e atividades culturais. Ambos os documentos afirmam muito claramente que o brincar não é "opcional" ‐ é essencial na vida das crianças. Se as crianças vivem ao máximo e crescem para ser o melhor que podem ser: física, emocional, social, intelectual e esteticamente, elas precisam de oportunidades para brincar e também para lazer e descanso. Elas precisam de espaço para apenas "ser" a cada dia. 
As crianças têm o direito de participar das decisões que lhes dizem respeito (Artigo 12 da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança – UNCRC). No brincar, isto inclui fazer escolhas sobre o tipo de brincadeira da qual gostariam de participar: com quem, onde, com que e por quanto tempo elas gostariam de brincar. As crianças também podem dar opinião sobre a forma como elas gostariam que seus ambientes de brincadeira fossem projetados e construídos e fazer parte desse processo de planejamento desde o início.(

Fonte: http://www.a-chance-to-play.de/fileadmin/user_upload/a-chance-to-play/ACTP_Brasil/1312_guia_brincar/ACTP_direito_de_brincar_GUIA_PRATICO.pdf)



Ao brincar as crianças se mantêm concentradas, negociam, representam diversos papéis, se expressam com múltiplas linguagens, interagem entre diferentes idades e fazem escolhas com autonomia. Criam enredos, personagens, cenas, geringonças e construções. Elas se mostram envolvidas, detalhistas e preocupadas com a estética da brincadeira. Algumas vezes, demoram demasiadamente para organizar, decidir papéis e regras. Fico angustiada de pensar sobre os recreios de 20 minutos...




Observo crianças que gostam de transitar e misturar-se entre as brincadeiras que acontecem em agrupamentos de todo tipo e várias ao mesmo tempo. Às vezes alguma opta por brincar um pouco sozinha (montar um lego, ler, descansar, ficar sem fazer nada) e não vejo como um problema. Tédio e ócio tem poder criativo, a criança aprende a solucionar problemas, a conhecer a si mesma, etc. Se o professor conhece bem esse aluno, saberá o que é necessidade e o que é algo que não vai bem.




Anoto, registro, estou sempre preparada, pois o espontâneo não se repete igual. Quando a criança tem a oportunidade de planejar e colocar em prática por conta própria o que imaginou, ela mostra muito sobre si mesma. E a gente aprende mais com elas.

Já reparou no ritmo das brincadeiras, nos gestos, no compasso, na transformação? Leva tempo, mas o importante é olhar e tentar refletir sobre o que está acontecendo, as minucias e as expressões corporais.

Brincadeira de mamãe e filhinha é uma das prediletas, seja com famílias de pessoas ou de animais. Brincam de Spa, restaurante, sorveteria, astronautas, aventureiros, clubes, poções mágicas, circo, parques temáticos, hospital, Pokémon, balada etc. 





Os tecidos e as cordas (necessidade de maior atenção por parte dos adultos) são essenciais para despertar essa imaginação e criatividade. A brincadeira de casinha nem sempre acontece com os elementos de casa e sim serve como um lugar de encontro, de proteção e de experiências. A cabana, por exemplo, é uma brincadeira que está diariamente presente, seja de camping, de tecido, de blocos de madeira; construída com bancos, cadeiras, mesas, canos pvc, apresenta diferentes formas. Um espaço acolhedor com ninhos, almofadas, colchonetes, algumas sem entrada de luz para ficarem bem escuras.

Na areia a diversão está por conta das possibilidades que  criam: cavam, amontoam, constroem vulcões, aeroportos, restaurantes, comidinhas, desafios etc. Usam folhas, flores, pedrinhas, brinquedos específicos para areia, sucata, coisas de cozinha e algumas vezes usam o brinquedo da sala.







Para determinado grupo de meninos o futebol é a principal fonte de diversão, algumas vezes deixam-no de lado e experimentam brincar de outras coisas mostrando todo seu potencial inventivo e o jogo simbólico aparece. 
Se pendurar em diversos lugares do brinquedão é algo muito presente, uma necessidade corporal. Inventam muitas formas de subir, girar e chegam a criar desafios com tecidos e cordas amarradas. De vez em quando também prendo um elástico grosso em algum espaço do parque criando uma "cama de gato", pura diversão!

No escorregador a diversão fica por conta de escorregar em caixas de papelão, tábuas de carne, tecidos, caixas plásticas, pneus e até uma banheira plástica. Colocam areia, água e outros obstáculos, além de utilizá-lo como rampa para dar impulso em alguns objetos como bolinhas e pneus.

Nesse mesmo espaço, acontecem shows com instrumentos adaptados do parque, palco, bilheteria, várias descobertas de sons e ritmos.
O desenho e a escrita fazem parte do brincar: registram ideias, fazem placas, pedidos, anotações e bilhetes. Criam brincadeiras e enredos no próprio papel.
Às vezes estão tão envolvidas que não gosto de interromper, então aviso aos poucos que dali algum tempo precisarão guardar. Também "congelamos" a brincadeira se existe a possibilidade de voltarmos para o espaço.



Brincar com água, pegar terra na horta, capturar insetos e deixar a água no sol para esquentar, são ações que acontecem com frequência. Se mostram curiosas, valentes ou medrosas em relação aos insetos que aparecem, querem florzinhas, galhos e folhas de plantas para embelezar seus bolos e alimentos de areia. Esses dias se maravilharam ao observar um pássaro que nos visitou com uma bela cantoria.

Todos podem brincar de tudo e é incrível observar os meninos passando por um momento onde brincam apenas com bichos de pelúcia, também teve a fase das fantasias de princesa. Sim, eles já sabem que brincadeira não tem idade, nem gênero. Podem experimentar a vontade sem nenhum olhar adulto que os intimidem.

As crianças dessa faixa etária quando têm a oportunidade de brincar livremente, me mostraram o quão potentes são, se as deixarmos criar e estarmos presentes para apoiá-las em ideias que precisam de ajuda para concluí-las. Tem sido uma bela experiência acompanhar esse brincar no FI.

O educador precisa conhecer bem cada criança, saber como é em casa (parceria com a família), na sala de aula (parceria com a equipe) e se abrir para conhecê-la profundamente criando um vínculo de confiança. Nessa idade já estão construídos muitos estereótipos e preconceitos.

Mantenha-se disponível, interessado e com olhar pesquisador. Costumo dizer que o primeiro passo para ser um professor inovador é renovar seu olhar: o professor é mediador da aprendizagem, a criança a potência do projeto pedagógico.

Acredite na essência da criança, não direcione, escute, observe, esteja junto, deixe acontecer sem saber no que vai dar. Mergulhe junto na imaginação! Você vai se surpreender, entregue-se! Viva essa experiência plena. O adulto que sabe brincar (respeitando sem direcionar) quebra barreiras na relação professor-aluno. A criança passa a confiar mais no adulto e nela mesma. 

Quanto mais o adulto tiver contato com seu interior, retomar suas memórias de brincadeiras e sensações, poderá se tornar mais sensível a esse mundo simbólico infantil conseguindo abrir e colaborar com esse campo da criança.

Certo dia, um grupo de meninas solicitou a câmera fotográfica e uma de nós professoras entregou para ver como utilizariam. Criaram filmes, stop motion, histórias incríveis sem nunca termos ensinado nada disso, podem ter aprendido em outro espaço direcionado, mas aqui colocaram em prática com toda autonomia. Olha que potência! Precisamos dar visibilidade! 


Brincar com armas, sentir medo, colocar-se em risco, se sujar... é bem polêmico, mas essencial de se vivenciar na infância. Enfrentar o sucesso e o fracasso, se fortalecer. As crianças precisam sim de segurança, mas sem excesso, sem superproteção. Portanto, devemos considerar o que pode ser benéfico ( que pode fazer parte do repertório de brincadeiras) e apropriado para idade, e o que não for precisa da intervenção do adulto. É possível observar que quando a criança sente medo e avalia que não consegue, ela desiste ou chama um adulto para ajudá-la e cada vez mais vai desenvolvendo sua consciência corporal.

Nós sabemos que as crianças criam armas com qualquer objeto, o próprio corpo em combate, sentir o bem e o mal, sentir-se herói, poder transgredir regras, morrer, matar, viver, reviver. O medo inibe o brincar, deixe-a sentir medo, descobrir seus limites e capacidades, lidar com essas situações.

  • Quando o risco vale a pena
https://www.youtube.com/watch?time_continue=38&v=DCULd07RzpQ
  • A criança que se sente capaz
https://www.youtube.com/watch?time_continue=3&v=viEiCB5zFGM


Penso sobre a importância da criança observar o dia-a-dia na escola, os diferentes cargos, as pessoas trabalhando, o que elas fazem, como fazem. Não precisa chamar o jardineiro para dar uma oficina ou ensinar algo, que tal ele fazer um trabalho no horário em que as crianças possam observar espontaneamente? Elas aprendem observando os gestos, elas imitam. 

Quando precisei dar um "tratamento" nas nossas jardineiras, separei os materiais e as crianças já perceberam meu movimento, começaram a observar, ver o que eu estava preparando e rapidamente me perguntaram "Posso ajudar?","Também quero!","O que você vai fazer?". E assim outras crianças foram se aproximando, todos participaram sem eu chamar, um pouco de cada vez de acordo com o interesse, eu não ensinei como fazer, eles me pediam orientação. Colocar a mão na terra e mexer com plantas é algo que elas buscam demais.

É preciso considerar a necessidade de trazer os elementos da natureza para os espaços que não têm essa condição, possibilitando novas experiências e conhecimentos sobre o mundo. Brincar com água, areia, terra, vento, plantas, flores, sol, chuva.


As crianças buscam suas matérias primas, seja na natureza ou fora dela, se lançam a procura de materiais para dar forma as suas ideias. Um lugar cheio de possibilidades com sucata, materiais não estruturados e materiais artísticos, abrem belos caminhos de invenção. Elas são perspicazes, enxergam além de nós adultos. Criam diversas propostas entre elas mesmas e ensinam umas as outras, por exemplo, fazem pipa com canudo, palito de churrasco, papel, durex, barbante e colocam-na para voar do jeito delas. É uma alegria dar vida as suas ideias!





Essa observação minuciosa e investigativa do brincar no cotidiano, a escuta ativa de cada criança, faz cada vez mais nos questionarmos sobre o que oferecemos, sobre o que é realmente importante se elas aprendem o tempo todo com tudo que fazem. Devemos refletir sobre o que propomos de tempo, espaço, materiais, desafios, currículo.


Brincar livre é brincar por brincar, com fim em si mesmo.



"O que é brincar? Por que é importante brincar?" 





Confira mais fotos no instagram: www.instagram.com/culturainfantil


terça-feira, 26 de setembro de 2017

LITERATURA INFANTIL: indicações do mês de setembro

 Texto e Ilustração: Raquel Matsushita
Editora do Brasil

Esse livro trata da amizade entre três formas geométricas: um círculo, um quadrado e um triângulo.

Cleusa e Clovis adoram criar muitas brincadeiras entre eles. Certo dia, Catarina pede para brincar, mas os amigos são tão inseparáveis que dizem "Não!". Algo acontece e Catarina consegue se divertir com Cleusa, mas Clovis fica um pouco de lado, será que eles conseguirão brincar juntos?

As formas se juntam e se dobram formando muitas imagens, com certeza as crianças vão adorar descobrir o que pode ser cada uma delas. E perceber como é gostoso se divertir em grupo e como é ruim ficar de fora quando se deseja entrar na brincadeira.

Boa imaginação!

Texto: Márcia Leite
Ilustração: Anita Prades
Editora: Pulo do Gato 

O título te faz lembrar alguma cantiga infantil? Já lembrou? Então prepare-se para se divertir e apresentar essa cantiga aos pequenos leitores.

A cada elefante que entra na cantiga, repete-se uma palavra e a mesma vai aumentando de tamanho. Ratinhos e elefantes ficam todos misturados.

A questão é: quem de fato está incomodado mais, os elefantes ou os ratinhos?


 Texto: Luiz Antonio Aguiar
Ilustração: Márcia Széliga
Editora: Escarlate

Essa coletânea apresenta 21 fábulas de Esopo, entre elas, as mais famosas e outras menos conhecidas, porém interessantes. 

O diferencial dessa edição é que a cada fábula o autor encontra uma forma de apresentar um pouco sobre a vida do seu criador, em pleno no século VI a.C. em Atenas, Grécia. Uma ótima oportunidade para ampliar os conhecimentos sobre fábulas, sobre essa época e se surpreender com esse contador de histórias.

A leitura é encantadora e nos remete ao passado, estimulando a imaginação e a curiosidade, o mesmo vale para as ilustrações. Desenhos expressivos, detalhados e com personagens representados pelo corpo metade humano, metade animal. 

Boa viagem ao passado!


 Texto: Sara Oleary
Tradução: Gilda de Aquino
Ilustração: Qin Leng
Editora: BrinqueBook

O que faz sua família ser especial? Essa foi a pergunta da professora. E sim, em algum momento da vida escolar de uma criança o assunto família será abordado. 

Uma obra sensível e emocionante! Nos coloca a refletir sobre a diversidade de formações familiares, ressaltando que o que importa é o sentimento fraterno.

Mas afinal o que é uma família?

Dois pais, duas mães, pai e mãe, avó-mãe, pais adotivos, irmãos adotivos, afilhados, pais separados etc.E a sua família como é? No meu caso, minha mãe também é pai e tenho um irmão que nada se parece comigo.


 Texto: Hiawyn Oram
Ilustração: Satoshi Kitamura
Editora: Pequena Zahar

Muitas vezes o que acreditamos não ter valor para as crianças é o que elas mais gostam de brincar. Há necessidade de tantos brinquedos prontos onde a criança não tem espaço nem se quer para imaginar, a brincadeira já esta dada?

São nos materiais simples, no contato com a natureza e com os objetos velhos, sem uso e do cotidiano, que elas inventam maravilhas, inclusive suas próprias regras. 

Crianças têm o poder incrível de se descolocar para outros mundos em instantes. Tenho certeza que ao ler essa história você vai se lembrar de alguma.

Vamos ao sótão?

Texto e Ilustração: Odilon Moraes
Editora: Olho de Vidro

Essa obra é uma história de vida, uma história da chegada de um bebê e da partida de um pai.

Se você é conhecedor de Guimarães Rosa, conseguirá perceber que o autor se inspira em João, em relação ao título e a um conto específico.

As ilustrações são marcantes. Com lápis preto e algumas tonalidades de marrom e preto em aquarela, meu olhar foi fisgado registrando movimento e suspense. Repare que o título do livro está em vermelho, assim como a rosa no fim do livro.

Leia, aprecie mais de uma vez e observe que texto e imagem estão em tempos distintos. A ilustração não está a serviço do texto e sim complementa e dialoga com as palavras. Fiquei muito curiosa em refazer a leitura algumas vezes, prestar atenção nas imagens e perceber essa conversa. 

Bom novo olhar!

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

EXPLORAÇÃO, BRINCADEIRA E ARTE: bebês em ação.

*Pesquisa apresentada no 9º Encuentro Internacional de Educación Infantil da OMEP Argentina - El cuerpo en juego en la educación de la Primera Infancia 2016

Os pequenos nos convidam a experimentar. Eles têm a arte dentro de si. Eles criam arte. Eles dizem algo. Algo que perdemos. Algo atraente e sedutor. Algo que não reconhecemos. E que não podemos explicar. Tudo é muito maior. Para as crianças pequenas existe uma conexão direta entre vida e obra. Essas são coisas inseparáveis. (HOLM, 2007, p.3)




Como enriquecer a rotina das crianças pequenas? O que fazer durante o dia todo? Quais atividades podem ser vivenciadas por bebês tão pequenos? O que fazer com crianças de 1, 2, 3 anos? 

Essas e outras perguntas são parte de uma demanda que recebo via minha fanpage do blog. Educadores com vontade de fazer diferente, mas com muitas dúvidas sobre o que e como oferecer. Em 2013, comecei uma especialização em educação de 0 a 3 anos e a partir daí tenho me dedicado a estudar essa faixa etária. Esse tema surgiu do meu interesse em investigar a exploração, a brincadeira e a arte entrelaçadas, para meu trabalho de conclusão do curso apresentado em 2015. Minhas principais questões foram: 



O que é considerado arte para bebês? Qual a importância dessa vivência para as crianças pequenas? Deve-se separar as áreas de conhecimento na primeiríssima infância? 

São questões complexas e abertas, mas pelo menos me ajudou a refletir melhor sobre cada uma delas e o que compartilho aqui é parte da minha pesquisa. 

PIAGET E NEUROCIÊNCIA: CONTRIBUIÇÕES 

Depois que a criança nasce, o processo de formação da inteligência acontece a partir do contato com seu entorno: as pessoas, os objetos, os materiais, as imagens, as sensações, a natureza, os animais. Considerando que quanto mais experiências positivas a criança puder viver, mais impactos positivos terá no seu desenvolvimento, a neurociência e o período sensório-motor descrito por Piaget em diálogo com as aprendizagens por meio dos sentidos e do brincar, tem a pretensão de definir a importância da arte na primeiríssima infância e de relacioná-las à escolha de situações que colaboram com o desenvolvimento infantil. 

Na abordagem de Piaget1, na fase sensório-motora, a construção do conhecimento acontece a partir da relação das ações motoras e sensoriais da criança, ou seja, ela aprende tocando, sentindo, experimentando e se movimentando. 

Richter (2014 apud PIAGET 1971) esclarece que: 

(...) a significação tem sua gênese na organização da experiência vivida. E a organização da experiência na criança surge pela descoberta dos limites de suas ações em relação às propriedades dos objetos, ou seja, da construção do real. Portanto, as propriedades que a criança extrai dos objetos derivam do conjunto de possibilidades de manipulação desses objetos. 

As propriedades físicas dos objetos são importantes para as crianças conhecerem suas características e propriedades, mas também sua potencialidade. Na abordagem de Reggio Emilia2, o atelierista Piazza em entrevista para Gandini (2012, p. 28) diz: 

Quando as crianças usam suas mentes e mãos para agir sobre um material usando gestos e instrumentos, começam a adquirir habilidades, experiência, estratégias e regras surgem estruturas dentro da criança, que podem ser consideradas como uma forma de alfabeto ou gramática. 

Ainda segundo Richter (2014 apud RAMOZZI-CHIAROTTINO, 1984, p.47) “(...) conhecer exige uma ação sobre o objeto para transformá-lo e para descobrir as leis que regem suas transformações (...)”. E a partir da experiência da ação e da organização dessa ação, o conhecimento acontece nessa relação: a criança interpreta e reconstrói o mundo, com uma imagem que faz sentido para ela, a seu entendimento. 

Richter (2014, p.187) revela que: 
Ao construir espaços e criar situações onde possa exercitar a liberdade, a criança faz e age sobre a matéria e o tempo-momento da ação, na concentração exigida pelo prazer do gesto significador. Os meios artísticos, aqui tornam-se estratégias de um pensamento que integra razão e desejo como instrumentos do conhecimento e da ação, permitindo a criança estar alerta, atenta não só ao que acontece fora, mas ao que se passa por dentro. 
Nesse processo a criança entra em contato com sua interioridade, a partir do momento que ela reproduz uma ação, ela passa a inventar movimentos e explorações, descobrindo que seus gestos deixam marcas. Essa invenção vem da imaginação, a criança começa a estabelecer relações e simbolizar, descobrir, repetir, reinventar, representar, e essa exploração se transforma em brincadeira. 


Para a neurociência3, os estímulos externos oferecidos pelos adultos são essenciais para estabelecer conexões entre os neurônios, ou seja, para formar cada vez mais sinapses. Por meio das informações enviadas pelos órgãos sensoriais, a criança aprende a tomar conhecimento do que acontece ao seu redor e como interagir com os objetos, para depois criar e organizar seu conhecimento a partir dessas vivências, favorecendo uma memória sensorial.

Os três primeiros anos de vida são decisivos para a formação dessas sinapses, sendo que o cérebro se mantém acelerado e em crescimento. Nessa faixa etária, o essencial é explorar todo tipo de sensação com diversos materiais e usando o corpo todo: estimular as mãos, a boca, o nariz, o olhar, o ouvido. A aprendizagem é um processo ativo e as crianças aprendem fazendo coisas. É a fase com maior potencial, em nenhum outro momento da vida o corpo humano aprende e se transforma tanto.

É importante lembrar que as crianças também precisam de uma pausa e de respeito ao ritmo de cada uma, sem uma proposta atrás da outra. A repetição e a diversidade de propostas em dias diferentes são importantes, mas o excesso de estímulos pode provocar estresse tóxico, ou seja, a redução das sinapses – das conexões neurais, prejudicando o desenvolvimento. A aprendizagem também depende do sono para que as sinapses possam ser consolidadas e da alimentação por necessidade de energia.

OS SENTIDOS

Os bebês conhecem o mundo levando os objetos à boca e é importante proporcionar essa experiência, assim conhecerão as sensações agradáveis e desagradáveis dos objetos. É comum nas propostas de arte que levem os materiais e tintas à boca; então é importante considerar o uso de alimentos e elementos naturais para a produção de tintas, melecas, massinhas, cola e usar giz de cera de abelha.

Com as crianças pequenas é possível explorar também por meio dos olhos: a observação do entorno demanda atenção e curiosidade sobre as coisas. E explorar os ouvidos: desenvolver a escuta atenta com sons, brincadeiras com instrumentos, ouvir o entorno, se movimentar de acordo com o som dos instrumentos e aproveitar situações cotidianas.

Para que uma criança tenha um bom desenvolvimento sensorial e perceptivo, ela precisa de um grande leque de opções de experiências e manipulação, assim como liberdade para atuar em um ambiente rico em espaço e em materiais, que ofereça experiências diversas com os objetos, o corpo, outras crianças, pessoas, animais e a natureza. Por isso é importante um trabalho com as cores, com as instalações, os ateliês, as melecas, o desenho, as tintas naturais, o teatro, intervenções no espaço, entre outros.

O CORPO 


Um corpo que vive cheio de ricos e simples estímulos do brincar com água, terra, areia, objetos, sons, jogos, conhecendo os alimentos, vivendo com os animais e plantas, fazendo arte com tudo isso, é um corpo vivido4 nessa fase tão importante da vida. Quanto mais possibilidades houver, melhor, como andar descalço, tomar banho de chuva, preparar alimentos, etc. Ao brincar a criança aprende sobre seu próprio corpo, aprende e fortalece relações de respeito e cuidado com as pessoas e com o espaço, em que cada cantinho é conhecido por elas.

Na abordagem Pikler5, os bebês de 3 a 15 meses têm completa liberdade de movimentos em relação à roupa adequada, ao espaço suficientemente bom para explorar e com a ausência de um adulto que insiste em ensinar a criança determinada ação que ainda não é capaz por conta própria, nessa abordagem valoriza-se a atividade autônoma da criança a partir de suas próprias iniciativas. Isso para que a criança se desenvolva com autonomia e mais consciente dos limites do seu corpo. Com essa vivência, os bebês se mostram mais livre, ativos e confiantes nas suas explorações e aprendem com suas conquistas e frustrações.

Moreira (2008), diz que a criança interage com mundo conquistando novas estruturas de movimento, então enquanto os pequenos rabiscam suas primeiras garatujas no papel, também correm de um lado para o outro aprendendo a controlar seu corpo, têm prazer nessa exploração do movimento e coloca intenção ao realizá-lo. A relação é mais com os gestos, os movimentos e o resultado das suas ações, tanto para o corpo quanto para a arte, para a alimentação, o brincar, o explorar; há uma gestualidade do cotidiano que está em diversas ações da criança. Quando as formas circulares aparecem nas suas brincadeiras, nos seus movimentos, nos gestos com os materiais, a criança conquistou uma fase importante e o jogo simbólico se inicia na tentativa de representar a realidade e a imitação do mundo adulto. 



ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

Considerando que a criança pequena de 0 a 3 anos é curiosa e precisa experimentar para conhecer e compreender o mundo ao seu redor - ela pesquisa explora, experimenta, investiga, testa, toca para descobrir. Acredito que a arte oferece experiências ricas e significativas para que a criança se expresse e explore seus movimentos, os objetos, os materiais e os espaços. 

A arte mobiliza aspectos cognitivos, motores, afetivos e expressivos além de ser uma atividade lúdica e prazerosa. Quando a criança faz arte, ela está inteira concentrada na ação, com o corpo todo, sendo assim o trabalho com a arte na infância pode acontecer com as linguagens integradas.

As crianças têm contato com materiais artísticos desde muito pequenas, o que elas fazem não é arte, mas costumamos nomear assim, elas brincam e exploram o que oferecemos e o que desperta interesse em direção a investigação, ao prazer de descobrir.



O que há de mais valor nessas vivências são as interações estabelecidas e as formas criativas de explorar, mais do que um objetivo a seguir, pois o processo deve ser o próprio objetivo.

Nessas vivências o papel do educador é fundamental para que as crianças conheçam por si mesmas, tenham liberdade de utilizar os materiais e os espaços, sendo protagonistas de suas aprendizagens, com todo seu potencial e curiosidade.

O diálogo com a arte contemporânea e os processos das crianças são fontes maravilhosas de inspiração. As crianças também são produtoras de cultura e experimentar essa arte, a partir do olhar do educador que conhece o percurso das suas crianças e busca referências que façam sentido e possam dialogar com o fazer delas, garante uma riqueza maior de vivências na prática. 

Algumas possibilidades além da pintura com tintas naturais, massinhas e melecas caseiras, para proporcionar uma diversidade de vivências, são propostas com elementos da natureza, com materiais não-estruturados, com luz e sombra, ateliês como espaços de pesquisa de determinados materiais (forma, textura ou cor), oficinas interativas com diversas linguagens misturadas em diferentes espaços, uso de argila, etc.

Os materiais simples como tecido, caixa de papelão, luz, embalagens, coisas de cozinha, do cotidiano, de descarte, são ótimos para oferecer às crianças, pois podem se transformar. 

A experiência significativa está nessa experimentação, no processo de sentir, descobrir e brincar com as linguagens, no que envolve esse processo. Na relação com a liberdade, a alegria, o afeto e a parceria dos adultos, aspectos fundamentais para o sucesso das aprendizagens.

Então, se a inteligência, a imaginação criadora, os sentidos e a percepção se desenvolvem por meio das ações das crianças sobre o mundo, é preciso permitir e promover situações para que elas explorem, investiguem e pesquisem diferentes materiais e suas possibilidades.

Que os educadores sensíveis continuem buscando formação continuada, trocas e reflexões sobre suas práticas e sensibilize seus colegas. Que fortaleçam o olhar na concepção de criança potente, capaz e criativa, crianças inteiras que aprendem com o corpo todos os conhecimentos integrados e que a partir da documentação dos processos, as aprendizagens possam se tornar visíveis à toda comunidade escolar. As crianças precisam de adultos parceiros, sensíveis e abertos ao convite de entrar no mundo infantil. 

Fazer arte na primeiríssima infância é juntar o brincar, as explorações sensoriais, as interações, as narrativas, os materiais, os espaços, é quebrar as fronteiras e valorizar as poéticas.



*Esse artigo foi publicado em maio de 2017 no portal www.direcionaleducador.com.br como conteúdo online para assinantes. Acesse o link, cadastre-se e conheça o site com conteúdos e cursos na área da educação.

*Fotos das escolas onde fiz observação para pesquisa de monografia.



1 Biólogo suíço Jean Piaget (1896-1980), pesquisou e criou um campo chamado epistemologia genética, ou seja, o conhecimento se desenvolve na criança a partir da sua própria construção na relação sujeito/objeto. 


2 Cidade localiza na Itália, onde a escola de educação infantil é referência no mundo todo. A abordagem educativa foi desenvolvida pelo pedagogo e educador Loris Malaguzzi. A pedagogia da escuta prioriza a escuta por parte do educador, assim as crianças ganham vez e voz para serem protagonistas de suas aprendizagens.

3 De acordo com Papalia, Olds e Feldman (2006), a neurociência cognitiva explica como é o desenvolvimento do cérebro das crianças, desde o feto, até os 3 anos, considerando a influência da herança genética e principalmente as experiências vividas nessa fase.

4 Termo usado por Terezita Pagani fundadora da escola Te-arte no livro de BUITONI, Dulcilia Schroeder. De volta ao quintal mágico: a educação infantil na Te-arte. São Paulo: Ágora, 2006. 

5 Abordagem criada por Emmi Pikler (1902-1984), pediatra húngara. Pikler estudou Medicina em Viena e desenvolveu um trabalho referência com crianças órfãs em um Instituto conhecido como Lóczy, na cidade de Budapeste, após a segunda guerra mundial.


Bibliografia principal: 


BARBIERI, Stela. Interações: onde está a arte na infância? São Paulo: Blusher, 2012. 

BUITONI, Dulcilia Schroeder. De volta ao quintal mágico: a educação infantil na Te-arte. São Paulo: Ágora, 2006. 

COSENZA, Ramon M; GUERRA, Leonor B. Neurociências e educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre: Artmed, 2011. 

GANDINI, Lella; HILL Lynn; CADWELL, Louise; SCHWALL, Charles. (Org.) O papel do ateliê na educação infantil: a inspiração de ReggioEmilia. São Paulo: Penso, 2012. 

HOLM, Anna Marie. BABY-ART Os primeiros passos com a arte. São Paulo: MAM, 2007. 

KÁLLO, Éva; BALOG, György. Los Orígenes Del juego libre. Budapest: Magyarországi Pikler-LóczTársaság, 2013. 

MOREIRA, Ana Angélica Albano. O espaço do desenho: a educação do educador. São Paulo: Loyola, 2008. 

PAPALIA, Diane E; OLDS, Sally W; FELDMAN, Ruth D. Desenvolvimento Humano. São Paulo: Artmed, 2006. 

PIAGET, Jean. O nascimento da inteligência na criança. São Paulo: LTC, 1987. 

RICHTER, Sandra. Infância e imaginação: o papel da arte na educação infantil. In: PILLAR, A. D. (Org). A educação do olhar no ensino das artes. Porto Alegre: Mediação, 2014, p. 155–170. 

VILA, Berta; CARDO, Cristina. Material sensorial (0-3 años) Manipulación y experiemntación. España: Graó, 2005.