quinta-feira, 21 de novembro de 2013

MISTURAS E INVESTIGAÇÕES: um relato sobre experiências no parque.*

*O artigo foi publicado em novembro de 2013 no site do Território do Brincar e como o mesmo foi reformulado, está fora do ar http://www.territoriodobrincar.com.br/blog-colegio-oswald/misturas-e-investigacoes . Essa reflexão faz parte de uma proposta de parceria com o Projeto Território do Brincar em Diálogo com a escola.




Os momentos de parque proporcionam diversas pesquisas, principalmente, com os elementos da natureza.
Na areia a diversão está por conta das possibilidades que criam: cavam, amontoam, constroem vulcões, percursos com água, restaurantes, comidinhas, mandalas, desafios, armadilhas etc. Usam folhas, flores, frutos das árvores (goiaba, jabuticaba e caqui), pedrinhas, brinquedos para areia. Até o bumba meu boi participou!





Se o dia é quente tem água e daí vira meleca: barro, pé na experiência...aquela alegria! Cavam buracos com tanto empenho que dizem encontrar argila no fundo da areia do parque, além de cores de terra diferentes. Também fazem tintas com plantas, com terra, com giz de lousa ralado na peneira e água, e saem pintando as paredes do parque.




Tenho observado cada vez mais a busca da natureza presente nessas brincadeiras, a relação das crianças com os elementos.
Essa busca por tintas na natureza deu início a um projeto chamado “Descobrindo tintas”: trabalhamos com terra, café, beterraba, farinha, areia etc. Provavelmente essas descobertas instigaram um imaginário ainda maior e impulsionaram, principalmente, as meninas a inventarem novas tintas com os elementos disponíveis neste espaço.





Colher e peneirar pedrinhas da areia também faz parte deste processo. Às vezes passam o tempo do recreio todo fazendo isso e guardamos para usar no outro dia, outras vezes querem levar suas criações para casa.
Trabalhar com a natureza estimula os sentidos, propicia o contato direto com sensações internas e as crianças vão dominando o uso desses elementos. Cada contato atua de forma diferente em cada ser.
 A beleza, a estética também se faz presente: a organização das comidinhas, mandalas e outras criações.
Os materiais não estruturados – as sucatas – são muito interessantes e proporcionam pesquisas com água e areia: encher e esvaziar, verificar as possibilidades das embalagens sobre qual é melhor para que, comparar peso, volume etc. Com estes materiais as crianças usam muito a imaginação e transforma-os em outras coisas, dão um novo valor. E como são adoradas as sucatas! Materiais simples que potencializam a capacidade de criar dos pequenos.
       




É encantador vê-los transformar estes objetos em brincadeiras tão prazerosas e envolventes.
Percebo que essas investigações unem o grupo, pois sempre há quatro ou mais crianças interagindo.
Em todas essas situações a intervenção do adulto tem sido indireta. Algumas vezes nos envolvemos na brincadeira, sentamos na terra, nos molhamos juntos e outras vezes observamos essas pesquisas para poder entendê-las, conhecê-las e participar. As crianças sabem que estamos disponíveis para brincarmos juntos e para lhes ajudar com suas ideias, por exemplo, é recorrente que nos peçam objetos ou outras coisas para complementarem as brincadeiras.
Toda essa observação é possível porque respeitamos o tempo das brincadeiras. Priorizamos essas investigações e também as guardamos para continuar no outro dia. As intervenções não restringem e sim sintonizam, dialogam com o brincar sem direcionar.



sexta-feira, 15 de novembro de 2013

BRINCAR NA PRAÇA: uma breve reflexão


“Memória”

“ Houve um dia aqui uma praça
Onde tantas crianças cantavam
Houve um dia aqui uma praça
Onde os velhos sorriam lembranças
Houve um dia aqui uma praça
Onde os jovens em bando se amavam
E os homens brincavam trabalhando
Um trabalho sem desesperança
Digo meu filho que esse jardim
Era o viço da vida vingando
Digo meu filho que esse jardim
Era o branco dos dentes brilhando
E a festa da vida seguia
Pelo o franco dos gestos libertos
Digo de fresca memória que não aqui não havia
Do medo este cheiro
Digo de fresca memória que não aqui não havia
De estátuas canteiros
Houve um dia aqui uma praça,
uma rua, uma esquina, um país
houve crianças e jovens e homens e velhos
um povo feliz.”

(Gonzaguinha)


Uma das minhas observações frequentes ao viajar pelo Brasil ou por outro país, é verificar como e por quem o espaço público é utilizado, e se há condições de ser frequentado.

É muito perceptível o quanto a vida das pessoas muda quando esse espaço passa a fazer parte da comunidade e ganha um valor especial: momentos de encontros, de brincar, de descobertas, de se divertir, de ler, de passar o tempo, de conversar, de fazer piquenique ou churrasco; de conhecer pessoas, namorar, jogar bola, ouvir música, misturar as “tribos” e faixas etárias, trocar, contemplar, ter contato com a natureza, ter liberdade etc. Uma vivência muito valorizada.

A praça como um lugar de circulação e de permanência, onde se guarda memória. Possibilita encontrar-se com sua própria cidadania, dar vida ao espaço, cuidar dele. Um local perfeito para a interação social, as manifestações e as festas. O contrário do que nossa sociedade alimenta: shoppings, condomínios fechados e escolas muradas.

Infelizmente o espaço público não é muito privilegiado aqui em São Paulo: a maior parte das praças ficam abandonadas e os parques sempre lotados. Parquinhos para as crianças brincarem ao ar livre são raríssimos e na maioria das vezes, existem porque os moradores ou alguma empresa privada é que toma iniciativa reorganizá-los e mantê-los.

Pensando nos espaços públicos na cidade, lembro-me que brincava bastante em praças e atualmente vejo pouco esta prática. O brincar na praça possibilita o resgate das brincadeiras tradicionais e brinquedos dos parquinhos. A criança caminha por caminhos mais livres, tendo a possibilidade de usar a imaginação e a criatividade. Interagindo com outras crianças e conhecendo-as, elas têm a oportunidade de conhecer as pessoas que vivem ali próximas e/ou que tem os mesmos interesses, ampliando seu círculo social e o contato com a natureza.

   Agora pare e retome por um instante como são suas lembranças de brincadeiras em praças e rua? Tenho certeza que são memórias agradáveis, afetivas e cheias de saudades! Possibilidades que só poderiam ser realizadas naqueles espaços específicos. Espaços esses fora de casa, com liberdade e com crianças maiores cuidando das menores.

A organização atual da sociedade mudou muito: as famílias já não têm a mesma formação que antigamente, a escola ganhou novos desafios e caminhos, a maneira como as crianças brincam (influenciadas por novos brinquedos e pelo consumismo), as casas diminuíram e os espaços para brincar consecutivamente.

A transformação da metrópole resignificou este espaço público de forma que se tornou dispensável. Mesmo com reivindicações para melhoraria das praças, há pouco investimento. Nas cidades pequenas é bem visível como a população usa a praça daquela mesma forma antiga e já nos grandes centros urbanos elas ficam abandonadas em meio às construções....

Conheça um movimento que abraçou essa causa: http://movimentoboapraca.com.br/