domingo, 7 de setembro de 2014

O TERRITÓRIO, O BRINCAR E EU.

*Essa reflexão foi escrita em 2013 para o Projeto Território do Brincar. Trata da importância da cultura brasileira e da cultura da infância na minha vida pessoal e profissional.



Atualmente curso uma pós em Educação de 0 a 3 anos. Neste curso conheci a Antropologia da Criança, um assunto que dialoga com outras referências que tenho estudado nestes últimos anos.

Em 2011 trabalhei com um projeto sobre as variações das brincadeiras  tradicionais brasileiras e foi pesquisando para aprender mais que conheci o projeto Território do Brincar.


Em 2012 criei um projeto sobre a diversidade de festas juninas brasileiras, influenciada por um curso anual para educadores no Instituto Brincante e em especial um módulo com a professora Lucilene Silva que me incentivou a pensar, com maior profundidade na cultura da infância, no repertório de brincadeiras tradicionais e no brincar livre. 

Nessa linha resolvi fazer algumas observações sobre o quanto as crianças conheciam brincadeiras de mão - pesquisei informalmente o repertório de crianças de 6 anos e onde aprenderam (os dois projetos citados já foram divulgados no blog). Ainda em 2012 fui para Santa Catarina e procurei informações sobre o Boi de Mamão e consegui participar da brincadeira em uma escola.

Arquivo pessoal

No início de 2013 viajei para Minas Gerais em busca de conhecer algumas cidades e em Belo Horizonte presenciei a Folia de Reis no Aglomerado da Serra, foi incrível. No mês de maio deste mesmo ano, fiz uma viagem de estudos para Reggio Emilia e conheci de perto a proposta educacional italiana que privilegia a escuta e o protagonismo infantil. 


No 2º semestre participei de um Seminário Internacional sobre a abordagem Pikler-Lóczy que tem como um dos princípios o olhar do educador em relação ao brincar dos bebês dentre outras coisas interessantes para se refletir. E nas férias de julho percorri de Belém a Natal me enchendo de vivências sobre os costumes de cada lugar.

Tive a oportunidade de assistir em São Luís as apresentações de Bumba Meu Boi: foi emocionante e inesquecível! Os adultos e as crianças dançavam lindamente me deixando hipnotizada pela beleza, pela sintonia, pela dança, pelo som da matraca e pelos detalhes das roupagens.

Arquivo pessoal

Essa busca pela cultura brasileira me ajuda a entender cada vez mais as manifestações e suas raízes. A cada viagem que faço adquiro livros, artesanatos, fotos e vídeos. E toda essa bagagem contribui para que eu compreenda melhor as infâncias do Brasil e a essência das pessoas que participam dessas festividades. Algumas vezes nessas viagens pude observar crianças brincando como havia assistido nos vídeos do Território do Brincar.

 
http://www.territoriodobrincar.com.br/criancas-no-brasil/vídeos

Escutar e alimentar a criança que carrego dentro de mim, ter clareza e compreensão da minha história e de como foi a minha infância, tem a ver com a educadora que sou. E essa clareza me ajuda a visualizar porque valorizo alguns aspectos mais do que outros e respectivamente uma influência nas minhas escolhas. A psicanálise aliada a resgates constantes e reflexivos sobre minha infância colaboram com essa consciência.
EU NO PARANÁ
O encontro dessa experiência com o Território do Brincar causou uma ebulição: a mudança de olhar foi inevitável!

Com a presença intensa do Território do Brincar na escola (parceria de 1 ano), pude vivenciar e entender mais de perto este projeto, além de ser incentivada e apoiada a adentrar o mundo das brincadeiras das crianças para tentar compreendê-lo de fato, sem meu olhar viciado, olhar que valorizava como "melhor"  a minha experiência na infância.

O projeto me ajudou a refletir sobre o brincar na escola e o brincar da nossa criança urbana, a compreender essa realidade e desmistificar ideias preestabelecidas como “as crianças não sabem mais brincar” e transformar essa ideia para “preciso entender esse brincar”.

Em diálogo com todas as influências que citei anteriormente, o Território do Brincar intensificou minha curiosidade nessa atividade infantil tão bela e atualmente tão pouco compreendida pelos adultos, talvez por um olhar engessado para essa atividade que precisa se renovar junto com a sociedade e as novas tecnologias, afinal a organização atual da sociedade mudou muito: as famílias já não têm a mesma formação que antigamente, a escola ganhou novos desafios e caminhos, a maneira como as crianças brincam (influenciadas por novos brinquedos e pelo consumismo), rotinas cheias de atividades extras, as casas diminuíram e os espaços para brincar consecutivamente. É
 preciso renovar-se já!  

Entre os encontros e os vídeos assistidos, posso dizer (com certeza) que mudanças importantes mobilizaram meu olhar, discurso e atuação. Mudanças que se transformaram a cada dia dentro de mim e no cotidiano escolar:

O olhar pesquisador, limpo da teoria e sem preconceitos, olhar aberto todo para criança mostrar seu potencial. O discurso reflexivo, aberto e atual.


O brincar em cada região se dá pela forma como se vive, cada lugar tem suas aprendizagens e espaços para brincar, tem a ver com a cultura que a criança está inserida.


Comecei a observar a minha  atuação no tempo da brincadeira e não interromper bruscamente: avisar um pouco antes que dali a pouco precisa guardar, respeitar o tempo das brincadeiras, priorizar essas investigações e também guardar para continuar no outro dia. Participar, observar e compreender a brincadeira.


Organizar materiais para as crianças que incentivam a imaginação, um recurso sem ser o brinquedo consumido frequentemente - que á abertura para ser o que quiser e fortalece o imaginário, cria muitas narrativas cada vez que se depara com os objetos. 


Arte que ilustrou um registro da minha experiência escola.

Observar as brincadeiras de casinha me fez olhar para meu grupo reconhecendo que eles não usam o modelo de casinha tradicional, porém usam a casinha como um lugar acolhedor, de encontro, de união, de esconderijo, de conforto, de centralização e criam poções, igrejas, restaurantes, famílias de animais, clubinho, circo etc. 

Entrar na brincadeira, sintonizar-se, dar boas ideias, contribuir, estar disponível, observar para entender melhor e conhecê-las ainda mais são intervenções indiretas. Elas não restringem pelo contrário sintonizam, dialogam com o brincar sem direcionar.

Neste ano (2013) deixei de fazer brincadeiras que planejei para validar as brincadeiras que as crianças queriam me ensinar. Ora ensinavam, ora aprendiam, ora escolhiam, ora pesquisávamos em livros etc.

Uma dos momentos marcantes foi uma relação que fiz ao assistir um vídeo sobre a brincadeira do boi no maranhão em um encontro com o Território do Brincar.

https://www.youtube.com/watch?v=yLo-3yKaslA

Nesse dia, o papel do Mestre me remeteu imediatamente ao qual deveria ser o papel do professor: na brincadeira do boi o Mestre não ensina, ele faz junto como disse Tião Carvalho. Ele não tem pressa, não impõe, deixa acontecer no seu tempo, dá dicas, vê o potencial de cada um e trabalha nele. Não há preocupação com o conteúdo e sim a consequência do processo de viver e experimentar assimilando e interiorizando. Considerando o potencial de cada um deixando-o desenvolver-se e não uniformizando, não há um único caminho. Há liberdade de estar ou não estar, confiança na criança.

Outro exemplo relacionado a este, encontrei no texto Náufragos e Piratas do Aprendizado do Gandhy Piorski. 


http://www.territoriodobrincar.com.br/blog-criancas-no-brasil/naufragos-e-piratas-do-aprendizado

E acho que são exemplos como estes que nos fazem refletir cada vez mais sobre como estamos formando nossas crianças. Será que estamos praticando o que realmente acreditamos ou ficamos somente no discurso com uma prática engessada?

Percebo em mim uma transformação maravilhosa e gradual que une teoria e prática, tanto pessoal quanto profissional. 

Obrigada Território do Brincar e Instituto Brincante por fazer parte dessa transformação!



Nesse ano (2014), o documentário Tarja Branca me proporcionou retomar essa reflexão e ampliá-la, foi muito emocionante assistir os pesquisadores que fizeram parte da minha formação defendendo o brincar e multiplicando essa mensagem para todos, além de estendê-la até a idade adulta, o que é muito importante.

Tive a sensação e a certeza de que estou no caminho certo, que meu trabalho é meu brincar e sou muito realizada como educadora: minha criança é preservada dentro de mim!

Continuo com meus estudos  sobre o brincar e a cultura brasileira, com observações das várias linguagens cotidianas das crianças em relação ao que elas querem me dizer e quais são suas necessidades, para que eu possa propiciar o meu melhor. Agora falta a próxima viagem: de Paraíba a Sergipe.