domingo, 23 de março de 2014

O OLHAR DO EDUCADOR: contribuições da antropologia da criança.

"A criança não sabe menos, sabe outra coisa". 
Clarice Cohn

" Que se escute o que ela tem a dizer, que se veja o que ela faz, que se seja sensível ao que ela sente, que se acolha o quela expressa" 
Aracy Lopes da Silva


Conheci a antropologia da criança por meio da pós-graduação e esse conhecimento me ajudou muito a ampliar a forma como observar os pequenos. Esse artigo é fruto de reflexões geradas durante as aulas, as leituras e a minha prática educativa.

Para se aproximar mais da infância e entendê-la, é preciso se desvencilhar de nossas idealizações sobre a criança e olhar para elas a partir do  mundo delas, da visão delas...
Olhar, observar sem quaisquer teoria, sem tentar antecipar as ações infantis classificando-as. Se faz necessário entrar no mundo infantil e ouvi-las. Mas, antes de começar a leitura tenho duas perguntas : O que é ser criança? E o que é ter infância?.

Antes de responder assista o documentário "Babies" em  http://vimeo.com/67691334 talvez ajude a pensar mais sobre como cada cultura lida com a criança.


 
O olhar é uma forma muito intensa e primária de comunicação. Com o olhar o educador estabelece uma relação com o seu grupo de crianças e vice-versa, assim como os pais têm um jeito de olhar que o filho já sabe o que significa. 

A maneira como nos comunicamos com os pequenos diz também o que consideramos sobre a criança, por exemplo, se há autoridade ou autoritarismo. Como você conversa com uma criança? Como é sua postura corporal?

A antropologia da criança analisa o que significa ser criança em diferentes culturas e sociedades. Quando pensamos o que é ser criança o melhor é considerar que não existe uma ideia definida; com a antropologia há uma mudança de paradigma e considera-se  as infâncias e as crianças, porque elas não têm as mesmas experiências, o mesmo valor em cada parte do mundo, o filme "Babies" nos apresenta muito bem porque esse novo paradigma. 

Segundo COHN (2009)
"Fazer antropologia é tentar entender um fenômeno em seu contexto social e cultural. É tentar entendê-lo em seus próprios termos. (...) não podemos falar de crianças de um povo indígena sem entender como esse povo pensa o que é ser criança e sem entender o lugar em que elas ocupam naquela sociedade - e o mesmo vale para crianças de uma metrópole".
Uma das metodologias de coleta de dados usada por diversos antropólogos é a etnografia: o pesquisador vive com povo que ele vai estudar. Observa, ouve e vivencia aquela realidade tentando compreender a cultura daquele grupo social, a participação é ativa. Portanto utilizando-se da etnografia é possível compreender a criança do seu ponto de vista sobre o mundo em que esta inserida. A etnografia é uma imersão total, o observador vira um aprendiz, entra na cultura, e cada experiência é diferente. A observação deve ser desapegada de quaisquer teoria, porque o conhecimento ás vezes atrapalha a real percepção. Há confiança no que vê, percebe e sente.

O filme "A invenção da infância" http://vimeo.com/64661145 também nos ajuda  a continuar nessa na reflexão. Agora pense: Quais são suas memórias de infância? Qual seu lado criança/infantil? 

É muito importante para o educador pensar sobre si mesmo, sobre sua infância e suas experiências (o que foi ruim, o que foi bom etc) para aceitar a criança que tem dentro de si e entender-se melhor para lidar mais adequadamente com as crianças e consigo mesmo. Neste caso, a psicanálise tem um papel muito importante. É valoroso entender suas próprias escolhas e porque não aceita tão bem algumas situações, conhecer sua singularidade, sua história.

Lembrei desse livro, apresentado na pós, que achei muito interessante da autora Beatrice Alemagna, editora WMF Martins Fontes:


De acordo com COHN (2009)
"Em outras culturas e sociedades, a ideia de infância pode não    existir, ou ser formulada de outros modos. O que é ser criança, ou quando acaba infância, pode ser pensado de maneira muito diversa em diferentes contextos socioculturais, e uma antropologia da criança deve ser capaz de apreender essas diferenças".
Acredito na concepção de criança como um sujeito social atuante na sociedade e com seus direitos, ela não é um mini adulto ou um ser em treinamento para vida adulta.   Ela é produtora cultura: dá novos sentidos e significados ao mundo que a rodeia e a suas experiências. Quantas vezes nos surpreendemos com o universo simbólico infantil: argumentações elaboradas e pontos de vista que muitas vezes sem elas não chegaríamos a imaginar. São crianças potentes e capazes no seu processo de aprendizagem e os adultos precisam provocar a curiosidade, a indagação; incentivar a investigação, a tomada de decisão, as escolhas, é preciso estar com a criança, apoiá-la, orientá-la e não impor tudo. Já a infância é uma fase da vida.

Considerando essa reflexão, é possível transformar o olhar para cada um dos seus alunos e para as diferentes situações que acontecem no decorrer da rotina escolar. 

Nós pedagogos determinamos quando falamos "essa criança é assim..." O quanto de riqueza se perde por automatizar o olhar para o avaliar, a rotina, as demandas, os planejamentos...Faz falta o olhar para este ser humano criança, ele não é somente aluno. 

Acho muito possível a mudança desse olhar, dessa postura. Fiz observações da minha e de outras práticas e percebi que nós professores perdemos cenas riquíssimas ao, por exemplo, pedir para uma criança parar de fazer algo sem antes observar porque ou o que ela está fazendo. Que cortamos as brincadeiras porque é hora de guardar, que às vezes a criança que você considera a mais agitada ou sapeca tem um outro lado encantador, etc. E ainda há outras perguntas que envolvem o olhar do professor:  o que é oferecido para o grupo faz sentido para elas? Há uma conexão com o conhecimento da criança, entre você e seu grupo de alunos?

A criança atribui significados que não conhecemos, um simples objeto pode se transformar em qualquer coisa, ela simboliza, dá um sentido e isso conta quem ela é.


A criança escuta, observa e quer entender. É curiosa por natureza e conhece o mundo pesquisando tudo ao seu redor.


Esse olhar que comento até aqui caminha junto com o protagonismo infantil e a escuta dos pequenos, mas essas outras duas formas de ver a criança será um outro artigo que tratarei de refletir.

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

COHN, Clarice. Antropologia da criança. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

FRIEDMANN, Adriana. História do percurso da sociologia e da antropologia da infância. Disponível em < http://media.wix.com/ugd/27072f_dc9482db8987290f70de8078851b63b6.pdf > acesso em 11-01-2014.


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O GRAFITE das ruas na escola de educação infantil







Volta às aulas, decidi fazer uma roda de conversa sobre as férias. Uma das crianças comentou sobre sua viagem de férias no qual havia observado grafites nas ruas, esse assunto suscitou uma interessante conversa e na outra semana li uma reportagem sobre crianças que grafitavam, assim iniciei o planejamento da proposta de levar a arte das ruas para escola.

O grupo se empenhou em aprender algumas técnicas do grafite, estavam ansiosos com a ideia. Começamos com a apreciação de um livro de grafite, depois troquei ideias com um amigo grafiteiro e assim dei uma forma para essa proposta.

A inspiração para o tema do mural partiu da leitura de um livro chamado "Com- fusão" do autor Ilan Brenmam. O grupo decidiu que cada um criasse seu bicho (metade um, metade outro) e iniciaram os desenhos em uma folha de sulfite A4 que depois foi ampliado para uma cartolina.

 O próximo passo foi passar esse desenho para o mural: primeiro traçaram com pincel fino e tinta cinza, depois pintaram o fundo do mural e pintaram os bichos. O acabamento foi dado com tinta preta usada para contornar os bichos esquisitos. Também espirraram um pouco de tinta com um borrifador e cada um fez sua “tag” (que é uma assinatura) ao lado da sua criação. Pronto, foi um sucesso!!! As outras salas também se encantaram e apreciaram durante a semana enquanto se divertiam no parque.









Outra experiência com outro grupo...

Visitei uma exposição sobre Grafite no Masp e a característica de um artista em especial, me chamou a atenção por criar muitas relações com o desenho infantil. Perguntei as crianças se sabiam o que era grafite, se já tinham visto em algum lugar na cidade e tivemos uma conversa bem produtiva.

 Disse a eles que iríamos conhecer as obras de um artista grafiteiro chamado Carlos Dias. Nós apreciamos os desenhos e um mural que o grafiteiro elaborou utilizando tinta, giz pastel, retratos velhos, partituras, bandejas de bolo de aniversário, páginas de livro, pedaços de materiais que diríamos...ser lixo.

O grupo se inspirou com a apreciação e criou o seu mural. Conversamos sobre os materiais, selecionamos alguns e colamos fragmentos como: craft, jornal, bandejas descartáveis, caixinhas etc. As crianças gostaram muito da experiência e ficaram apaixonados pelo próprio trabalho. A partir daí foi comum ouvir durante o ano todo comentários sobre a observação dos grafites na cidade.


*Trabalho realizado em 2008 e 2009.


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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

REPETIÇÃO DE SIGNOS: uma experiência com crianças de 4 anos*

*Em 2012 esse trabalho foi finalista do XIII Prêmio Arte na Escola Cidadã e apresentado em 2014 no 7º Encuentro Internacional de Educación Infantil OMEP Argentina - Arte en la Primera Infancia.




Esse projeto teve a duração de 2 meses. As produções foram expostas em uma mostra de trabalhos de artes da escola chamada ”Bienal”, onde toda comunidade escolar foi convidada a apreciar todos os trabalhos realizados por todas as séries.

A proposta partiu de uma observação dos desenhos das crianças desde grupo. Do quanto já tinham começado a figurar, a se interessar mais pela representação da realidade e o quanto alguns estavam se arriscando a produzir novos traços que representassem algo que os demais reconhecessem, buscando se aproximar da figuração. Sendo assim me pareceu um bom momento, pois para os que se sentiam inseguros, poderiam criar bolinhas, linhas, formas etc.

Este projeto teve o objetivo de estimular as crianças a utilizarem processos de construção de desenhos de uma forma diferente - eles gostam bastante de repetição de signos e cópias de desenhos - e também oferecer um suporte diferente que traga uma nova experimentação, estão acostumados a desenhar frequentemente em suportes planos (bidimensional) e nesta atividade precisarão desenvolver estratégias para desenhar em um cilindro (tridimensional).

A ideia partiu com o grupo em que eu fui professora titular, mas como havia outra sala da mesma série em período diferente, eu, a outra professora do período da manhã, a professora de artes e a coordenadora nos juntamos e pensamos na outra sala participar e produzir uma repetição em um tecido para que fosse a porta da casinha já que minha turma faria as paredes. Então, esse outro grupo seguiu os mesmos passos, utilizando apenas o suporte diferenciado. O desafio deste era controlar a orientação de seus traços, já que era um tecido grande que seria utilizado por todos colegas da sala.


O tema foi escolhido pelas crianças, propus apenas a ideia da repetição de signos e cada um pode criar seu padrão, considerando o que era fácil para cada um desenhar. As crianças observaram várias repetições para que pudessem criar as suas: estampas de roupas, repetições em tapetes, azulejos, imagens da natureza, padrões indígenas e obras de arte.





Contei aos pequenos que precisariam se empenhar nestes desenhos para que cada um ficasse o mais parecido do outro, então era preciso considerar uma representação simples, sem muitos detalhes para não ser cansativo. A expectativa era que eles atingissem este objetivo.

Os conteúdos e objetivos de cada etapa:




Levantamento de conhecimentos prévios - Conversa inicial sobre estampas de roupas: Como são? O que elas têm em comum? Quais tipos de estampas estão observando? (Flores, listras, nuvens etc) Que as crianças percebam as repetições e as variações, por exemplo, a repetição é de coelho, mas tem coelho cinza e coelho listrado - mais de um tipo do mesmo signo.



Apresentar os suportes que usaremos para esta atividade – cilindros de papelão que são usados nas fábricas de roupas com tecidos enrolados neles (solicitei que uma fábrica separasse alguns para mim e cortei-os ao meio). Contar que cada um vai inventar uma estampa (uma repetição de desenho) para aplicar nos cilindros, que estarão fixos em quadrados de argila, para que depois parem em pé.

Apreciar imagens. Identificar as repetições nas imagens. Questioná-los sobre o que estão observando: do que são as imagens? O que elas têm em comum?.


Edney Antunes 











Desenvolver qual será a sua repetição: Criatividade e expressão.






Escolher qual a cor de fundo vai pintar o cilindro (tecido) e fazê-lo.







Aplicar a repetição ao cilindro (tecido) e o professor verifica as dificuldades, se estão conseguindo cumprir a repetição.




Para elaborar este projeto contei com Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, um livro chamado Grafismo Indígena do organizador Lux Vidal da Editora Edusp, somado a minha experiência e criatividade na área artística, a ideia partiu também de uma experimentação pessoal como artista, onde eu me empenhava em pensar repetições de signos.

Os materiais utilizados foram: cilindros de papelão, argila, tinta guache, caneta hidrocor e caneta retroprojetor. Utilizamos a sala de aula em todas as etapas, é organizada com 4 mesas e 4 cadeiras em cada mesa e um espaço para realizarmos as rodas. Os materiais de artes ficam em uma estante específica acessível a eles.

A avaliação deste projeto se deu por meio de observação das etapas passo a passo e as intervenções realizadas, por exemplo, as crianças foram orientadas a não exagerar nos detalhes, a encontrar estratégias para facilitar a produção, o cuidado com os materiais, a concentração para não “errar” (Pois eles ficam muito chateados quando isso acontece), o capricho pelo que se faz, o incentivo, o elogio, o apoio etc.

A pesquisa foi importante para que o projeto pudesse acontecer. As roupas - para observação das estampas - foram possíveis de se trazer à escola, mas as demais imagens busquei na internet, as crianças participaram de outra maneira desta pesquisa: elas ficaram atentas as repetições e combinamos que me chamariam caso identificassem alguma na escola. E várias vezes isso aconteceu ao observarem ilustrações de livros, paredes, chão, grades, janelas e até a tartaruga que mora no pátio! Além de lembrarem-se de roupas que tem em casa, como um menino que comentou na primeira roda de conversa e apreciação de estampas “Eu tenho uma camiseta de futebol que tem uma listra vermelha e outra azul, uma vermelha e outra azul,...!”.

O projeto desenvolvido ampliou o repertório artístico e cultural dos alunos na medida em que puderam observar que a inspiração artística pode surgir de diferentes fontes inclusive da natureza e de observações do cotidiano, conhecer artistas contemporâneos, identificar que não necessariamente precisa ser um desenho figurativo, que há muitas formas de combinar linhas, por exemplo, e criar novas tramas, e assim essa experiência permitiu que as crianças acessassem este conteúdo, fizessem relações e criassem suas próprias representações.

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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

CONSTRUÇÃO COM SUCATA: investigação, arte e brincadeira



Ao término do projeto “Coleção de tampinhas” no qual juntou-se mais de 1.000 unidades, uma pergunta se fez presente: o que faremos com as tampinhas? Essa inquietação fez com que as crianças precisassem decidir o que fazer com esse material. A primeira ideia foi construir uma fábrica. No entanto, ao procurar traduzir essa ideia, percebemos que  a intenção das crianças estava em divertir as tampinhas, o que fez com que o “projeto da fábrica” se transformasse em um parque de diversões chamado Tampinholândia.
O grupo explorou as tampinhas durante algumas semanas brincando nos cantos, depois resolveram classificá-las para organizá-las e pensaram como as utilizariam nessa construção.
Tiveram contato com alguns vídeos que mostraram como funcionam “engenhocas” e brinquedos que se movimentam construídos com materiais não estruturados, e colhemos algumas ideias possíveis.
A partir das ideias em comum fizemos um grande planejamento coletivo contendo quais brinquedos poderiam ser construídos bem como os materiais que seriam utilizados.
Depois de algumas rodas de conversa as crianças desenharam os projetos, separaram toda sucata trazida de casa por elas e também aquelas que conseguiram com a colaboração da comunidade escolar.
O objetivo era construir um parque de diversões para a coleção de tampinhas, investigando as possibilidades de cada material trabalhado (materiais recicláveis e outros) e as conexões entre eles (com fita crepe, cola quente, cola líquida, durex, fios etc) buscando reproduzir os movimentos de alguns brinquedos.
A brincadeira é pautada no percurso pelo qual passarão as tampinhas, com a possibilidade de criarem um brinquedo grande com um “circuito” em que as tampinhas se divertem. 

*Trabalho realizado em 2013.

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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

MISTURAS E INVESTIGAÇÕES: um relato sobre experiências no parque.*

*O artigo foi publicado em novembro de 2013 no site do Território do Brincar e como o mesmo foi reformulado, está fora do ar http://www.territoriodobrincar.com.br/blog-colegio-oswald/misturas-e-investigacoes . Essa reflexão faz parte de uma proposta de parceria com o Projeto Território do Brincar em Diálogo com a escola.




Os momentos de parque proporcionam diversas pesquisas, principalmente, com os elementos da natureza.
Na areia a diversão está por conta das possibilidades que criam: cavam, amontoam, constroem vulcões, percursos com água, restaurantes, comidinhas, mandalas, desafios, armadilhas etc. Usam folhas, flores, frutos das árvores (goiaba, jabuticaba e caqui), pedrinhas, brinquedos para areia. Até o bumba meu boi participou!





Se o dia é quente tem água e daí vira meleca: barro, pé na experiência...aquela alegria! Cavam buracos com tanto empenho que dizem encontrar argila no fundo da areia do parque, além de cores de terra diferentes. Também fazem tintas com plantas, com terra, com giz de lousa ralado na peneira e água, e saem pintando as paredes do parque.




Tenho observado cada vez mais a busca da natureza presente nessas brincadeiras, a relação das crianças com os elementos.
Essa busca por tintas na natureza deu início a um projeto chamado “Descobrindo tintas”: trabalhamos com terra, café, beterraba, farinha, areia etc. Provavelmente essas descobertas instigaram um imaginário ainda maior e impulsionaram, principalmente, as meninas a inventarem novas tintas com os elementos disponíveis neste espaço.





Colher e peneirar pedrinhas da areia também faz parte deste processo. Às vezes passam o tempo do recreio todo fazendo isso e guardamos para usar no outro dia, outras vezes querem levar suas criações para casa.
Trabalhar com a natureza estimula os sentidos, propicia o contato direto com sensações internas e as crianças vão dominando o uso desses elementos. Cada contato atua de forma diferente em cada ser.
 A beleza, a estética também se faz presente: a organização das comidinhas, mandalas e outras criações.
Os materiais não estruturados – as sucatas – são muito interessantes e proporcionam pesquisas com água e areia: encher e esvaziar, verificar as possibilidades das embalagens sobre qual é melhor para que, comparar peso, volume etc. Com estes materiais as crianças usam muito a imaginação e transforma-os em outras coisas, dão um novo valor. E como são adoradas as sucatas! Materiais simples que potencializam a capacidade de criar dos pequenos.
       




É encantador vê-los transformar estes objetos em brincadeiras tão prazerosas e envolventes.
Percebo que essas investigações unem o grupo, pois sempre há quatro ou mais crianças interagindo.
Em todas essas situações a intervenção do adulto tem sido indireta. Algumas vezes nos envolvemos na brincadeira, sentamos na terra, nos molhamos juntos e outras vezes observamos essas pesquisas para poder entendê-las, conhecê-las e participar. As crianças sabem que estamos disponíveis para brincarmos juntos e para lhes ajudar com suas ideias, por exemplo, é recorrente que nos peçam objetos ou outras coisas para complementarem as brincadeiras.
Toda essa observação é possível porque respeitamos o tempo das brincadeiras. Priorizamos essas investigações e também as guardamos para continuar no outro dia. As intervenções não restringem e sim sintonizam, dialogam com o brincar sem direcionar.

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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

BRINCAR NA PRAÇA: uma breve reflexão


“Memória”

“ Houve um dia aqui uma praça
Onde tantas crianças cantavam
Houve um dia aqui uma praça
Onde os velhos sorriam lembranças
Houve um dia aqui uma praça
Onde os jovens em bando se amavam
E os homens brincavam trabalhando
Um trabalho sem desesperança
Digo meu filho que esse jardim
Era o viço da vida vingando
Digo meu filho que esse jardim
Era o branco dos dentes brilhando
E a festa da vida seguia
Pelo o franco dos gestos libertos
Digo de fresca memória que não aqui não havia
Do medo este cheiro
Digo de fresca memória que não aqui não havia
De estátuas canteiros
Houve um dia aqui uma praça,
uma rua, uma esquina, um país
houve crianças e jovens e homens e velhos
um povo feliz.”

(Gonzaguinha)


Uma das minhas observações frequentes ao viajar pelo Brasil ou por outro país, é verificar como e por quem o espaço público é utilizado, e se há condições de ser frequentado.

É muito perceptível o quanto a vida das pessoas muda quando esse espaço passa a fazer parte da comunidade e ganha um valor especial: momentos de encontros, de brincar, de descobertas, de se divertir, de ler, de passar o tempo, de conversar, de fazer piquenique ou churrasco; de conhecer pessoas, namorar, jogar bola, ouvir música, misturar as “tribos” e faixas etárias, trocar, contemplar, ter contato com a natureza, ter liberdade etc. Uma vivência muito valorizada.

A praça como um lugar de circulação e de permanência, onde se guarda memória. Possibilita encontrar-se com sua própria cidadania, dar vida ao espaço, cuidar dele. Um local perfeito para a interação social, as manifestações e as festas. O contrário do que nossa sociedade alimenta: shoppings, condomínios fechados e escolas muradas.

Infelizmente o espaço público não é muito privilegiado aqui em São Paulo: a maior parte das praças ficam abandonadas e os parques sempre lotados. Parquinhos para as crianças brincarem ao ar livre são raríssimos e na maioria das vezes, existem porque os moradores ou alguma empresa privada é que toma iniciativa reorganizá-los e mantê-los.

Pensando nos espaços públicos na cidade, lembro-me que brincava bastante em praças e atualmente vejo pouco esta prática. O brincar na praça possibilita o resgate das brincadeiras tradicionais e brinquedos dos parquinhos. A criança caminha por caminhos mais livres, tendo a possibilidade de usar a imaginação e a criatividade. Interagindo com outras crianças e conhecendo-as, elas têm a oportunidade de conhecer as pessoas que vivem ali próximas e/ou que tem os mesmos interesses, ampliando seu círculo social e o contato com a natureza.

   Agora pare e retome por um instante como são suas lembranças de brincadeiras em praças e rua? Tenho certeza que são memórias agradáveis, afetivas e cheias de saudades! Possibilidades que só poderiam ser realizadas naqueles espaços específicos. Espaços esses fora de casa, com liberdade e com crianças maiores cuidando das menores.

A organização atual da sociedade mudou muito: as famílias já não têm a mesma formação que antigamente, a escola ganhou novos desafios e caminhos, a maneira como as crianças brincam (influenciadas por novos brinquedos e pelo consumismo), as casas diminuíram e os espaços para brincar consecutivamente.

A transformação da metrópole resignificou este espaço público de forma que se tornou dispensável. Mesmo com reivindicações para melhoraria das praças, há pouco investimento. Nas cidades pequenas é bem visível como a população usa a praça daquela mesma forma antiga e já nos grandes centros urbanos elas ficam abandonadas em meio às construções....

Conheça um movimento que abraçou essa causa: http://movimentoboapraca.com.br/