quinta-feira, 15 de junho de 2017

GÊNERO NA ESCOLA: pequenas ações do cotidiano

Essa é uma reflexão pessoal, meu desejo é compartilhar os pensamentos e conexões, depois de ler o manifesto "Para educar crianças feministas" da autora Chimamanda Ngozi Adichie que surge como uma sugestão, não uma receita. Essa leitura abriu um diálogo com minha prática, com que acredito como educadora, professora e mulher. 


Uma leitura de 40 minutos e um turbilhão de relações.
Durante minha trajetória como pedagoga,, várias vezes fui chamada a atenção e convidada a refletir sobre minhas atitudes no ambiente escolar. Sou muito agradecida e hoje faço o mesmo quando ministro um curso. É muito gratificante observar o quanto uma fala pode transformar uma prática que era mais automática, menos pensada. 

Quando vi essa publicação fiquei interessada e no primeiro compartilhamento, muitas pessoas já criticaram sem ler, provavelmente, apenas pelo fato da palavra feminista estar no título. Quando acho algum assunto um tanto estranho, novo ou chocante para mim, guardo, penso, pesquiso, leio, troco com outras pessoas e depois chego a algum posicionamento sobre o assunto. 

Com tantas formações (eu sou daquelas doidas por um curso), ouvi diversos profissionais experientes e muitos puxões de orelhas, em relação a como tratamos nossas crianças, afinal o que está por trás da linguagem usada pelo adulto? Sim, as concepções! Então precisamos cuidar disso, nós formamos seres humanos e devemos considerar a educação das crianças na situação histórica, social e cultural em que estão inseridas.

Meninas e meninos precisam de uma nova postura em relação a educação que recebem. Nós precisamos disso, de uma oportunidade para formarmos uma sociedade mais justa, tolerante e respeitosa, menos preconceituosa, violenta e sem tantos estereótipos.

A editora Companhia das Letras compartilhou em sua página no facebook o seguinte:
"Para educar crianças feministas" traz conselhos simples e precisos de como oferecer uma formação igualitária a todas as crianças, que deve começar pela justa distribuição de tarefas entre pais e mães. E é por isso que este breve manifesto pode ser lido por homens e mulheres, por pais de meninas e meninos.
Partindo de sua experiência pessoal como mãe e filha, Adichie nos lembra como é moralmente urgente termos conversas honestas sobre novas maneiras de criar nossos filhos, e presenteia o leitor com o que chama de um mapa de suas próprias reflexões sobre o feminismo. O resultado é uma leitura essencial para todos aqueles que acreditam que a educação é o primeiro passo para a construção de uma sociedade mais justa".

Na mídia

Lembrei de alguns vídeos que me ajudaram a ampliar essa reflexão e foram muito compartilhados nas redes sociais, confira (assista todos antes de continuar a leitura):



Criar ambientes com direitos e oportunidades iguais para todos!

Não reforçar os estereótipos do que é ser mulher e do que é se homem!



É importante que tanto meninas, quanto meninos sejam incentivados a não reprimir seus sentimentos!


O papel da escola na desconstrução de estereótipos!


Meninas e meninos nascem com a mesma capacidade para aprender!


O que significa: fazer as coisas Tipo Menina?


Por uma infância sem estereótipos de gênero!




Querida Lego company:


Meu nome é Charlotte. Eu tenho 7 anos e eu amo legos, mas eu não gosto que existam mais pessoas de lego para meninos e quase nada de lego para meninas. Hoje eu fui a uma loja e vi legos em duas seções: as meninas com cor rosa e os meninos com cor azul. Tudo o que as meninas faziam era sentar em casa, ir à praia e comprar, e elas não tinham empregos, mas os meninos iam em aventuras, trabalhavam, salvavam pessoas e tinham empregos, até nadavam com tubarões. Eu quero que vocês façam mais pessoas de lego meninas e deixem elas irem em aventuras e se divertirem, ok!?! 



Obrigada, 
Charlotte






Querida Gap, 



Meu nome é Alice Jacob e eu tenho quase cinco anos e meio. Gosto de camisetas bacanas, como aquelas do Super-Homem e Batman ou de carros de corrida.

Todas as suas camisetas para meninas são cor de rosa e têm princesas ou coisas assim. As dos meninos são bem mais legais. Elas têm Super-Homem, Batman, rock-and-roll e esportes. Mas e as meninas que gostam desse tipo de coisa, como eu e a minha amiga Olivia?

Vocês podem fazer algumas camisetas realmente legais para meninas? Ou podem criar uma seção que não seja para meninos ou meninas, só para crianças? 



Obrigada, 

Alice Jacob.




Na escola

As relações de gênero são construídas desde a infância, são questões culturais, construção essa que pode ser modificada, pois são relações históricas e se deram de forma desigual. As relações existentes padronizam e normatizam comportamentos, expectativas. Já é tempo de desnaturalizar esses padrões, desconstruí-los, renová-los.

As relações de gênero estão na escola, assim como estão na sociedade. A escola educa as relações de gênero, talvez não explicitamente, não é um tema levado para a sala de aula com os pequenos de educação infantil e séries iniciais, mas o tempo todo se constrói um lugar para o menino e para menina.

É um assunto delicado, mas necessário. São pequenas ações e atitudes que podem abrir um mundo novo de possibilidades para as crianças.

A escola deve partir da premissa do respeito aos direitos humanos: as pessoas são diversas, são diferentes e isso não é motivo para discriminação e não pode gerar desigualdade ou violência.

O professor, assim como toda equipe precisam se informar, conhecer, ler, ouvir e olhar a própria prática, questionar sua postura, problematizar e questionar imagens que reforçam esses padrões. Exercitar o olhar, é um exercício diário. 

A escola também tem a função de apresentar figuras que quebram estereótipos sociais, fazer as crianças questionarem esses papéis.

O adulto é referência, é modelo. As crianças confiam no que dizemos e questionam quando acham necessário ( se houver espaço e escuta). Às vezes, ouvir o outro ou observar outras crianças livres (de papéis decididos socialmente) nas brincadeiras, já garante uma nova experiência ou uma reflexão sobre a quebra de estereótipos.

Os pequenos se agarram com muita força em relação ao que esperamos deles e buscam esse modelo. Devemos desconstruir essa separação do que é para menino e o que é para menina e possibilitar que todos possam experimentar de acordo com suas vontades. Uma conversa breve e bem explicada é importante para liberá-los a experimentar o papel que desejarem. Conversas pontuais, conversas mais abertas, individuais ou em grupo, o assunto interessa muito, basta começar uma conversa que os demais se envolvem em dar sua opinião.

As crianças são muito curiosas e querem entender como funciona o mundo e os assuntos mais complexos sempre aparecem. Alguns adultos preferem fingir que não ouviram ou fogem do assunto. Eu sempre quero falar para ampliar a visão delas, seja sobre gênero, família, sexualidade, religião, raça etc. Sempre mostrando que há caminhos distintos, há diferenças, há valores e crenças, e todos devem ser valorizados e respeitados.

Crianças devem ter os mesmos direitos e oportunidades, independente do gênero. A escola precisa oferecer uma gama de materiais para brincar e permitir que as crianças o façam sem restrição de papéis.

Segundo uma reportagem do portal Eduqa.me :

Educadores devem lembrar que, durante a infância e a adolescência, as crianças ainda estão em processo de formação – e isso inclui sua sexualidade. Catalogar objetos, cores, roupas como “para meninos” e “para meninas” acaba por gerar uma distorção na compreensão da realidade dos pequenos. Mesmo maquiagens e vestidos não precisam ser banidos entre os garotos: é comum usar da fantasia e dos personagens para superar situações reais, assim como usar batom ou esmalte pode ser uma expressão artística. Isso não irá “transformar” a criança em hétero ou homossexual – essa será uma descoberta que ela fará no futuro, sem qualquer relação com os brinquedos que utilizou quando menor. O saudável é permitir que ela explore suas alternativas sem julgamento.

Crianças pequenas já empregam a palavra gay como um xingamento e chamam meninos de mulherzinha caso usem fantasias com saias ou vestidos. Meninas que gostam de futebol, são vistas como "molecas", que preferem fantasias de super heróis e chuteira, são mais alternativas e aceitas. Mas se um menino usar rosa, passar maquiagem ou se vestir de princesa, a reação dos demais é bem desrespeitosa. 

Existe uma "preocupação" e um olhar se o menino será gay ou não, é muito grave que adultos que trabalham com a formação de crianças também estejam presos nesses estereótipos, querendo encaixar cada um numa caixinha. 

É comum encontrarmos bonecas com o sexo feminino na escola, mas e o sexo masculino? E bonecas e bonecos de pano com diversas representatividades?

Tem cor de menino, cor de menina? E brinquedo? Menino pode chorar? Existe sexo frágil? Coisa de menino, coisa de menina? Profissões adequadas? Espero que os vídeos tenham ajudado a refletir. Chega desse mundo rosa presente nos brinquedos: panelinhas e tudo que é tipo de brinquedo "para meninas". Não, na vida real o mundo não é rosa! Use panelinhas de metal, panelas de verdade...

Meninas são obrigadas a fazer balé e quantos meninos são julgados por não gostarem de futebol ou preferirem as meninas para brincar?

Já tive um aluno de 9 anos que brincava de boneca na escola, mas me solicitava para não tirar fotos, pois o pai não iria gostar de ver. E a escola, banca fotos de crianças brincando sem camiseta, meninas jogando futebol e meninos de vestidos (fantasia) e boneca?

Um dia, uma aluna me questionou o seguinte "Marcela, por que as histórias sempre começam "os homens" e as mulheres?". Falando do uso de homens para se referir a humanidade, já se sentindo invisível como mulher.

Não podemos deixar que a questão de gênero e de preconceito se naturalize na escola, se cada família tem sua educação, o papel da escola é oferecer uma nova visão. Temos questões muito serias para lidar: sexismo, misoginia, feminismo, racismo, estereótipo, sexualidade, discriminação e preconceito.

Não dá para fechar os olhos, deixar que crianças desumanizem outras crianças. Deixar que adultos que atuam na formação desses indivíduos reproduzam o que a sociedade precisa mudar. E não adianta só formação de professores, é uma mudança interna de conscientização, de abandono de postura para uma nova atitude para vida.

Na sociedade atual a escola já se depara com novas formações familiares e como conversar sobre isso com crianças pequenas? Os professores estão preparados? Estão abertos a discutir fora dos estereótipos?

Nos deparamos com muitas situações no cotidiano escolar, que refletem as crenças familiares e os estereótipos padrões, aparecendo como gozações, brincadeiras e até agressões.

O próprio conteúdo escolar, sem percebermos, apresenta aos alunos modelos de como pensar, agir e sentir referente aos gêneros, o que é adequado a cada um e o que se espera.

Quando você divide a turma entre meninos e meninas, você já pensou o porquê? Qual o objetivo? É importante que as crianças tenham as duas referências, separar por um motivo x e também não separar, propor se agrupar de forma diferente.

Precisamos mostrar as crianças que todos tem seu valor, nem melhor, nem pior. O que vale para menino, vale para menina, estamos falando da educação de crianças. Não podemos reforçar a desigualdade de gênero.

As crianças precisam crescer com toda sua potencialidade. Deixemos a criança se comportar como ela mesma, não ensinemos agradar os outros, ser boazinha, assim ela passará por cima dela mesma. Há crianças que não sabem ser elas mesmas, suportam e se sujeitam para ser aceitas pelo que os adultos esperam. Ensine honestidade, bondade, coragem, verdade, ensine a criança a falar o que sente quando estiver feliz, triste ou incomodada.

Eu adoro farejar todo tipo de conversa mais "cabeluda" entre as crianças e faço questão de colaborar com uma visão mais aberta: quando falo sobre algum assunto ou alguma palavra que elas acham que professora não fala ou não iria gostar de ouvir, abro um diálogo de confiança. É nítido na expressão facial delas o quanto dá um alívio saber que exitem as diferenças, que devem ser respeitadas e que seria muito chato se todos fossem iguais. Existem muitos livros na literatura infantil que ajudam a conversar sobre esses assuntos mais difíceis.


Teria muio mais para refletir...




Mais informações:

http://www.hypeness.com.br/2014/02/para-acabar-com-estereotipos-cadeia-de-brinquedos-sueca-cria-catalogos-de-genero-neutro/

http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/vida-urbana/2015/10/02/interna_vidaurbana,600678/sete-situacoes-de-sexismo-no-cotidiano-das-brasileiras.shtml

https://aboycantoo.wordpress.com/the-influencers/

http://pacmae.com.br/a-menina-de-7-anos-que-explicou-estereotipos-de-genero-para-a-lego/

http://naescola.eduqa.me/carreira/educacao-de-genero-por-um-ensino-sem-coisa-de-menino-e-coisa-de-menina/


Material para donwload:

http://desafiodaigualdade.org/DOWNLOADS/PLAN_DesafioDaIgualdade_CADERNO-ATIVIDADES.pdf

http://www.acaoeducativa.org.br/fdh/wp-content/uploads/2015/11/kit-gay-escola-sem-homofobia-mec1.pdf

Vídeos:

O que é ser homem
https://www.youtube.com/watch?v=ZJ64IPTAMSU
Completo aqui 
https://www.youtube.com/watch?v=jyKxmACaS5Q

Ideologia de gênero - Café Filosófico
https://www.youtube.com/watch?v=rRltL1dyuJc

Garotinha fala sobre roupas de meninos e meninas
https://www.youtube.com/watch?v=rPFzB6FIEOM

Menina questiona o sexismo
https://www.youtube.com/watch?v=LE7fzUx-rS8


CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE
Nasceu em Enugu, na Nigéria, em 1977. Sua obra foi traduzida para mais de trinta línguas e apareceu em inúmeras publicações, entre elas a New Yorker e a Granta. Recebeu diversos prêmios, entre eles o Orange Prize e o National Book Critics Circle Award. Vive entre a Nigéria e os Estados Unidos. Veja o trailer de Meio sol amarelo, romance que concedeu à autora o Orange Prize:
http://www.adorocinema.com/filmes/filme-215958/trailer-19535051/
Assista ao TEDx da autora:
https://www.youtube.com/watch?v=hg3umXU_qWc
https://www.youtube.com/watch?v=D9Ihs241zeg
Parte do discurso foi musicada pela Beyoncé:
https://www.youtube.com/watch?v=IyuUWOnS9BY
Entrevista sobre a música:
http://gente.ig.com.br/cultura/2016-10-11/chimamanda-e-beyonce.html
Site: http://chimamanda.com/
Fonte: http://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=02561