segunda-feira, 17 de novembro de 2014

MANDALAS POR TODA PARTE


*Projeto apresentado no VI Congresso ICLOC Práticas na sala de aula e finalista no XV Prêmio Arte na Escola Cidadã, ambos em 2014.




“ A mandala possui uma eficácia dupla: conservar a ordem psíquica se ela já existe; restabelecê-la, se desapareceu. Nesse último caso, exerce uma função estimulante e criadora”. Carl Jung
O projeto foi realizado no 2º semestre de 2013, com um grupo de 21 crianças do 1º ano do ensino fundamental I formado por alunos entre 6 e 7 anos de idade e uma criança com Down.

A escola oferece duas aulas de ateliê por semana com 1h de duração cada e incentiva as professoras a desenvolverem projetos interdisciplinares baseados nas expectativas de aprendizagem da série e nas observações realizadas a cerca do interesse do próprio grupo. 

As motivações iniciais para elaborar o projeto partiram de algumas observações: a turma muito inquieta (ativa, curiosa, tudo de bom!) e desenhos ou muito elaborados ou um tanto estereotipados e/ou com repertório pouco variado.

As próprias propostas de arte contribuíram para minha observação em relação ao interesse pela organização e simetria nas produções de alguns alunos. O tema partiu da professora e depois conforme o envolvimento das crianças, o nome do projeto ficou como “Mandalas por toda parte”. 

O projeto contemplou algumas expectativas de aprendizagem do 1º ano na área de identidade, arte, ciências humanas e naturais.

Este projeto teve como objetivo geral confeccionar mandalas utilizando diferentes bases e os mais diferentes materiais. E como objetivos específicos: criar sua própria linguagem e ampliar sua capacidade expressiva e perceptiva, identificar a forma da mandala em objetos e situações relacionadas ao cotidiano, desenvolver a percepção visual e a sensibilidade para as cores; associar a mandala com brincadeiras de roda, proporcionar as crianças o conhecimento das mandalas tanto de utilização espiritual quanto decorativa, trabalhar com simetria, cores, texturas sobre bases circulares, formas geométricas, transpor as ideias de mandala para fora do papel e desenvolver a atenção, concentração, autoestima, a diminuição da agitação motora, da ansiedade e impulsividade; o raciocínio, a criatividade, a aprendizagem, a expressão emocional e o relaxamento.

Para iniciar o projeto aproveitei uma prática das crianças observada nas oficinas de percurso e propus uma atividade disparadora com cola plástica e um círculo de cartolina.

Depois conversamos em roda e apresentei algumas mandalas: perguntei se conheciam aquela forma, se já tinham visto em algum lugar e se lembrava as produções que fizemos, para levantamento de conhecimentos prévios, feito isso fomos ao mural apreciar os trabalhos, observar se encontravam alguma dessas características conversadas na roda e só depois contei que trabalharíamos com mandalas semanalmente. E assim iniciamos o projeto.

Para garantir todos os objetivos planejados, e outros inusitados, os conteúdos foram inseridos em diversas propostas.




 









Em
 outros momentos as crianças criaram livremente mandalas na areia do parque e relacionaram a mandala aos momentos de brincadeira de roda e massagem.

Essas propostas aconteceram em espaços diferentes, usamos o ateliê, a sala de aula e o parque. Também tiveram atividades individuais, em pequenos e grandes grupos. Parte dos materiais foi fornecido pela escola e outros solicitados as famílias.

Para elaborar este projeto contei especialmente com a internet que me propiciou encontrar tudo que é tipo de mandala possível, inclusive um texto do Jung e utilizei alguns livros como o da Casa Redonda, Mandalas para crianças e Mandalas de Bolso ambos para pintar.

A pesquisa foi essencial para que o projeto pudesse acontecer com tamanha riqueza. Ensinei e aprendi junto com as crianças. 





A avaliação deste projeto se deu por meio da minha observação direta a cada proposta e as intervenções realizadas, por exemplo, as crianças foram orientadas a começar do meio para fora, a combinar linhas e formas e deixar de lado o desenho que representa com frequência, a se concentrar, criar o seu estilo, persistir se errar, evitar comparações e respeitar as produções alheias etc. Cada criança teve sua caixa de pizza de mandala e foi possível acompanhar a sua evolução e criatividade desde o início do projeto até o fim, na reunião de pais elas foram enviadas para casa. As produções foram expostas ao longo do projeto nos murais da escola, assim as crianças puderam apreciar e comentar durante diferentes momentos. Até os outros grupos estavam trabalhando com mandalas, talvez nossos murais serviram de inspiração. Também foi produzido um livro de mandalas para pintar.

O projeto desenvolvido ampliou o repertório artístico e cultural das crianças na medida em que puderam observar que a inspiração artística pode surgir de diferentes fontes inclusive da natureza e de observações do cotidiano, conhecer a arte contemporânea de Beatriz Milhazes e a LandArt, identificar que não necessariamente precisa ser um desenho figurativo, que há muitas formas de combinar linhas e criar novas tramas, e assim essa experiência permitiu que as crianças acessarem este conteúdo, fizessem relações e criassem sua própria linguagem desenvolvendo seu percurso criativo.

Esse é um recorte de um projeto muito rico e que durou bastante tempo.

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*Todos os direitos autorais das imagens e texto reservados para Marcela Chanan. É proibida sua cópia sem autorização prévia. O compartilhamento da publicação na íntegra diretamente do blog (link e via redes sociais) é livre.

Bibliografia

Pereira, Maria Amélia Pinho. Casa redonda: uma experiência em educação. São Paulo: Editora Livre, 2013.

Pilastre, Christian. Mandala de bolso – Volume 1. São Paulo: Editora Vergara & Riba, 2008.

Vidal, Montserrat. Mandala de bolso – Volume 4. São Paulo: Editora Vergara & Riba, 2009.

Pré, Marie. Mandalas para crianças: uma nova ferramenta pedagógica. São Paulo: Editora Vergara & Riba, 2007.

Falcon, Glória. Vamos Pintar as Mandalas?. São Paulo: Editora Vergara & Riba, 2007.

Pilastre, Christian. Mandalas de Al-Andaluz. São Paulo: Editora Vergara & Riba, 2007.

Dibo, Monalisa. Mandala: um estudo na obra de C. G. Jung . Disponível em < http://www4.pucsp.br/ultimoandar/download/UA_15_artigo_mandala.pdf >
acesso em 17 de agosto de 2013.



domingo, 16 de novembro de 2014

O LIVRO PIRATA DOS PIRATAS

Autor: Saviour Pirotta
Ilustrador: Mark Robertson
Tradução: Monica Fleischer Alves
   Editora: GIRASSOL
 
 
Esse é um livro que desperta muito interesse nas crianças, principalmente para os meninos de 5 e 6 anos,  são seis histórias e um pôster bem grande de pirata para pendurar, brincar, descobrir tesouros e saber tudo sobre esses navegantes.
 
Tanto as ilustrações, quanto as narrativas são bem reais e cheias de detalhes com expressões de dar um medinho! Quando me deparei com esse título gostei muito porque é difícil encontrar livros de piratas e este ainda reúne diferentes histórias que estimulam a imaginação e os pequenos podem aprender mais sobre os piratas que tanto os encantam.
 
As brincadeiras de pirata ganharão novos enredos!
 


sábado, 1 de novembro de 2014

INVESTIGANDO PLANTAS: vivências

No fim do 1o semestre as crianças participaram de uma intervenção nas árvores do parque e o grupo do período integral, que frequenta às quintas-feiras, demonstrou muito interesse pelas plantas. Considerando essa curiosidade, pensei em uma oficina para o 2o semestre.



Comecei com uma roda de conversa, o grupo colocou suas hipóteses em relação a planta ser um ou não ser viva e assim fizemos uma tabela comparando as características em comum entre o animal, o ser humano e a planta - eles já sabiam muitas coisas, mas algumas questões permaneceram.

Na escola esse tema já faz parte do currículo, então pensei em três grandes objetivos para essa oficina: propostas dinâmicas, observação da diversidade das plantas para que essa experiência reflita nos registros e procurar responder outras questões mais individuais ao longo das vivências. Inicialmente foi isso...

No 2o semestre, o interesse cresceu mais ainda, por conta de uma observação no parque: uma das árvores, a Sibipiruna, passou por uma transformação. 

Durante o 1o semestre, a árvore que era apenas percebida por fazer sombra com suas folhas, no retorno das férias, ganhou destaque por derrubar cascas de sementes na areia, depois todas as suas folhas caíram, sua folhagem cresceu novamente e flores forraram o chão do parque de amarelo. Um espetáculo maravilhoso para os olhos e para oportunidade de brincar com as cascas e as flores.


Com essa transformação, resolvemos pesquisar e conhecer melhor as plantas da escola. O grupo fez uma busca de folhas caídas por diferentes espaços, e munidos de pinça e um saquinho transparente, recolheram uma grande diversidade de folhas para observação de suas formas, texturas, linhas, cheiros, cores....Depois organizamos todas juntas para visualizarmos melhor.








Durante essa pesquisa, eles também começaram a prestar atenção nos insetos que apareciam no jardim e até criaram "casinhas" com potes, areia, água e gravetos para brincarem durante o parque.

O grupo ficou tão interessado que várias crianças trouxeram folhas do jardim de casa, do parque, da rua...ampliando a diversidade que colheram pela escola e em outro momento a proposta foi um registro com desenho de observação e frotagem.




O documentário Life Plants da BBC, foi essencial para retomada de hipóteses e dúvidas iniciais. Puderam ampliar seus saberes e entender melhor como vivem as plantas e sua diversidade no planeta. É um vídeo incrível! Faz parte de um box, a única questão é que não tem dublado, só legendado e eu narrei o que achei importante contextualizar.






http://livraria.folha.com.br/filmes/documentario/bbc-life-box-4-dvds-dvd-1152978.html







Esses são os registros do que eles mais gostaram de aprender assistindo esse documentário:












A diversidade de plantas e a contribuição dos animais para natureza foi o que mais despertou interesse no vídeo, além das plantas carnívoras.

Também fomos ao laboratório da escola para investigar as espécies lá encontradas e sentir suas texturas e cheiros.




Selecionei diferentes livros e deixei na biblioteca da sala para que pudessem pesquisar e apreciar quando quisessem.

Achei importante apresentar imagens e informações sobre as plantas tóxicas mais comuns no Brasil e as crianças reconheceram algumas espécies. Utilizei informações desde site http://www.escolakids.com/plantas-toxicas.htm

Com tantas conversas e pesquisas, o assunto chegou na alimentação e aproveitamos para integrar outro tema que trabalhamos: a alimentação. Conhecer as frutas, experimentar os sabores, ver como é por dentro e por fora, fazer culinária faz parte da rotina do integral.  Até criamos uma lista com cada fruta que oferecemos no cardápio, informando porque é importante consumi-la. Frequentemente, observo crianças conferindo a lista em diferentes momentos da rotina. No mês passado, visitamos a feira ao lado da escola. E com esse interesse pelo tema plantas, as crianças pesquisaram algumas árvores frutíferas e exploraram mais de perto uma muda de tomate, de morango e de capim cidreira.



Na área de arte, o grupo trabalhou com propostas de carimbo com folhas, pintura de folhas secas e desenho com interferência de folha.




Na última oficina, plantamos sementes de salsinha, manjericão e amor-perfeito. Vamos observar o crescimento e os fatores que contribuem para o mesmo. Outro fato divertido, é que depois que começaram estudar as plantas, algumas crianças começaram a separar as sementes das frutas para plantar e verificar se crescem. Também plantaram grãos de feijão, por conta de um chocalho estourado: nasceram muitos e replantamos em uma jardineira, estamos acompanhando o seu desenvolvimento.

  
Autora: Rina Singh
Ilustradora: Helen Cann
Editora: WMF Martins Fontes
A leitura é um momento especial, as histórias são mais longas e o grupo se mantém concentrado. Quando termino, sempre pedem para ler a próxima narrativa e ficam curiosos para saber sobre a nova árvore - cada história conta sobre uma.

O livro “Uma floresta de histórias – contos de árvores mágicas do mundo todo”, traz narrativas encantadoras que mexem com o imaginário das crianças e apresenta diferentes culturas. É uma ótima referência para explorar as representações de árvores, que muito me interessa.

Quando li a história da castanheira, minha parceira de trabalho ensinou uma brincadeira, da castanheira, chamada "Okina Kuri No" da cultura japonesa. Passaram semanas e semanas cantarolando essa canção em japonês....Ela é encontrada no livro Brincadeiras Cantadas de cá e de lá.


A partir dessas oficinas, foi possível observar o quanto o grupo desenvolveu hábitos de cuidado e de observação, considerando a dependência e a interdependência tanto dos animais quanto dos seres humanos. As propostas despertaram a sensibilidade pelas plantas e colaborou com os desenhos mais elaborados e menos estereotipados. Até a alimentação melhorou.

E as oficinas continuam...teremos uma saída pedagógica para o Viveiro Manequinho Lopes, produção de casa para pássaros, desenho com gravetos e sementes, pintura com pincel de folha de pinheiro....

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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

FORMAÇÃO DE PROFESSORES: O papel do ateliê na educação infantil


Autores (org): Lella Gandini, Lynn Hill,
Louise Cadwell e Charles Schwall
Editora: Penso


"O ateliê deve ser principalmente um local agradável (nas palavras do próprio Malaguzzi) em que as crianças tenham prazer de estar, pensar, imaginar e agir- enfim, ter prazer na produção de saberes, na descoberta e na invenção."  (Prefácio à edição brasileira, Ana Lúcia Goulart de Faria)


O livro relata a experiência dos ateliês da abordagem de Reggio Emília em diálogo com outra cultura, mapeando a transformação enriquecedora de implementar essa prática italiana em creches e escolas dos Estados Unidos. 

Apresenta todo processo unindo teoria, prática e reflexão. Inclui entrevistas e relatos dos envolvidos e do grupo de pedagogos italianos que foram protagonistas dessa pedagogia.

Esta obra é essencial para compreender melhor qual o conceito de ateliê, como ele funciona e o que fazem os atelieristas, trazendo também particularidades da prática e ideias de projetos.

Se há interesse em trabalhar inspirado nessa abordagem, pode ser um bom caminho para começar e se já trabalha, para rever sua prática. 

Um convite a um novo olhar, cheio de descobertas e de muita reflexão. Boa leitura!

sábado, 11 de outubro de 2014

GILDO E OS AMIGOS no banho, na piscina, no balde, na água!

 
   Autora e Ilustradora: Silvana Rando
   Editora: Brinque-Book
 
 
Essa é uma coleção encantadora! São três títulos com textos e momentos na maioria das vezes conhecidos pelas crianças: a escola, o jardim e a praia. O simpático elefantinho compartilha momentos de diversão com os amigos em diferentes lugares.
 
Nas três histórias Gildo encontra os amigos, eles se divertem e vão embora juntos. Há uma estrutura na qual as crianças podem notar e antecipar, pois Gildo sempre encontra os amigos na mesma ordem:  primeiro Paulo, depois Verinha, João e por último Catarina. O texto também repete o nome de todos os personagens a cada um que surge e ao término da história.

Essa estrutura contribui para melhor memorização e compreensão do texto, assim as crianças começam a participar mais dos momentos de leitura e até imitar o adulto como se estivessem lendo (o que normalmente já acontece) apoiando-se na repetição desses elementos.
 
O livro é feito de plástico, então é possível levar Gildo no banho, na piscina, na praia, no parque, na água...
  
 
  
Você conhece a primeira história de Gildo lançada em 2009?
 
 
Gildo é muito corajoso, mas existe uma coisa que o deixa apavorado: a noite anterior a uma festa de aniversário! Porque será?
 
Este livro é muito bacana para conversar com as crianças sobre o medo. Trata de maneira simples este assunto que é muito comum entre os pequenos.
 
Ao ler essa história as crianças se sentem a vontade para falar sobre seus medos e como lidam com eles.
 
As ilustrações são cativantes e divertidas, foram premiadas pelo Prêmio Jabuti de literatura infantil em 2011.
 
 
 
 


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

MONSTROS URBANOS

*Experiência apresentada no VIII Congresso ICLOC em 2016.


Autora: Renata Bueno
Ilustradora: Renata Bueno
Editora: WMF Martins Fontes




Em 2014, um livro chamado "Monstros urbanos" captou minha atenção pela capa, o avistei pela primeira vez em uma livraria como destaque de lançamento. Apanhei-o para folheá-lo e a para minha surpresa tratava-se de intervenções em fotos de paisagens urbanas que me lembravam a arte urbana que tanto admiro. Conferindo a editora, aproveitei a parceria com o blog e solicitei um exemplar para conhecer melhor. Ideias já brotavam na minha cabeça ...

A cada página o desejo de ver a próxima imagem, de descobrir outro monstro, de conferir a criatividade da autora Renata Bueno e identificar o local da foto (chão, parede, rua etc). Me encantei com o livro e agora vejo monstros o tempo todo.



O livro descreve a trajetória da autora e como ela desenvolveu esse belo trabalho, parte essencial para compreendê-lo. Me apaixonei por ele! E quando gosto muito de algo sempre faço uma relação com as crianças e levo para escola, dessa vez não foi diferente.

Apresentei o livro (título, autora e editora) e li o texto que conta o processo de criação. Conversamos sobre o título, pois não sabiam o que significava a palavra "urbano" e tentaram adivinhar por meio da capa o que o livro nos apresentaria, também perguntaram se era uma história. Quando comecei a folheá-lo as crianças perceberam que não havia uma narrativa e sim muitas imagens. Uma criança também fez relação com o grafite, arte urbana.

Pronto! Conferimos todas as páginas!

Instiguei as crianças a adivinharem de quais lugares da cidade eram as fotos. Me surpreendi com a reação deles: ofegantes e entusiasmados, alguns pareciam estar em uma montanha russa tamanha gritaria ao se surpreenderem com cada virada de página, outra criança ficara ao meu lado ansiosamente esperando a próxima página tocando no canto da folha, enquanto outras se esforçavam para analisar os locais em que as fotos foram tiradas e como se organizava aquele monstro na página.

Terminada a apreciação o livro ficou disponível na sala. Pensei em organizar uma saída com o grupo pelas calçadas ao redor da escola e deu certo! Fotografamos e depois trabalhamos no computador criando cada um seu monstro.


Também fui informada pela bibliotecária que a autora Renata Bueno foi ex-aluna da escola e se disponibilizou para uma conversa com o grupo, aproveitamos e montamos uma exposição com as produções para conversarmos sobre a experiência de conhecer o trabalho dela e produzir monstros.

 

No ano de 2016 a autora publicou uma versão francesa desse livro e com um destaque sobre esse projeto. Foi uma honra!



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domingo, 7 de setembro de 2014

O TERRITÓRIO, O BRINCAR E EU.

*Essa reflexão foi escrita em 2013 para o Projeto Território do Brincar. Trata da importância da cultura brasileira e da cultura da infância na minha vida pessoal e profissional.



Atualmente curso uma pós em Educação de 0 a 3 anos. Neste curso conheci a Antropologia da Criança, um assunto que dialoga com outras referências que tenho estudado nestes últimos anos.

Em 2011 trabalhei com um projeto sobre as variações das brincadeiras  tradicionais brasileiras e foi pesquisando para aprender mais que conheci o projeto Território do Brincar.


Em 2012 criei um projeto sobre a diversidade de festas juninas brasileiras, influenciada por um curso anual para educadores no Instituto Brincante e em especial um módulo com a professora Lucilene Silva que me incentivou a pensar, com maior profundidade na cultura da infância, no repertório de brincadeiras tradicionais e no brincar livre. 

Nessa linha resolvi fazer algumas observações sobre o quanto as crianças conheciam brincadeiras de mão - pesquisei informalmente o repertório de crianças de 6 anos e onde aprenderam (os dois projetos citados já foram divulgados no blog). Ainda em 2012 fui para Santa Catarina e procurei informações sobre o Boi de Mamão e consegui participar da brincadeira em uma escola.

Arquivo pessoal

No início de 2013 viajei para Minas Gerais em busca de conhecer algumas cidades e em Belo Horizonte presenciei a Folia de Reis no Aglomerado da Serra, foi incrível.
E nas férias de julho percorri de Belém a Natal me enchendo de vivências sobre os costumes de cada lugar.

Tive a oportunidade de assistir em São Luís as apresentações de Bumba Meu Boi: foi emocionante e inesquecível! Os adultos e as crianças dançavam lindamente me deixando hipnotizada pela beleza, pela sintonia, pela dança, pelo som da matraca e pelos detalhes das roupagens.

Arquivo pessoal

Essa busca pela cultura brasileira me ajuda a entender cada vez mais as manifestações e suas raízes. A cada viagem que faço adquiro livros, artesanatos, fotos e vídeos. E toda essa bagagem contribui para que eu compreenda melhor as infâncias do Brasil e a essência das pessoas que participam dessas festividades. Algumas vezes nessas viagens pude observar crianças brincando como havia assistido nos vídeos do Território do Brincar.

 
http://www.territoriodobrincar.com.br/criancas-no-brasil/vídeos

Escutar e alimentar a criança que carrego dentro de mim, ter clareza e compreensão da minha história e de como foi a minha infância, tem a ver com a educadora que sou. E essa clareza me ajuda a visualizar porque valorizo alguns aspectos mais do que outros e respectivamente uma influência nas minhas escolhas. A psicanálise aliada a resgates constantes e reflexivos sobre minha infância colaboram com essa consciência.
EU NO PARANÁ
O encontro dessa experiência com o Território do Brincar causou uma ebulição: a mudança de olhar foi inevitável!

Com a presença intensa do Território do Brincar na escola (parceria de 1 ano), pude vivenciar e entender mais de perto este projeto, além de ser incentivada e apoiada a adentrar o mundo das brincadeiras das crianças para tentar compreendê-lo de fato, sem meu olhar viciado, olhar que valorizava como "melhor"  a minha experiência na infância.

O projeto me ajudou a refletir sobre o brincar na escola e o brincar da nossa criança urbana, a compreender essa realidade e desmistificar ideias preestabelecidas como “as crianças não sabem mais brincar” e transformar essa ideia para “preciso entender esse brincar”.

Em diálogo com todas as influências que citei anteriormente, o Território do Brincar intensificou minha curiosidade nessa atividade infantil tão bela e atualmente tão pouco compreendida pelos adultos, talvez por um olhar engessado para essa atividade que precisa se renovar junto com a sociedade e as novas tecnologias, afinal a organização atual da sociedade mudou muito: as famílias já não têm a mesma formação que antigamente, a escola ganhou novos desafios e caminhos, a maneira como as crianças brincam (influenciadas por novos brinquedos e pelo consumismo), rotinas cheias de atividades extras, as casas diminuíram e os espaços para brincar consecutivamente. É
 preciso renovar-se já!  

Entre os encontros e os vídeos assistidos, posso dizer (com certeza) que mudanças importantes mobilizaram meu olhar, discurso e atuação. Mudanças que se transformaram a cada dia dentro de mim e no cotidiano escolar:

O olhar pesquisador, limpo da teoria e sem preconceitos, olhar aberto todo para criança mostrar seu potencial. O discurso reflexivo, aberto e atual.


O brincar em cada região se dá pela forma como se vive, cada lugar tem suas aprendizagens e espaços para brincar, tem a ver com a cultura que a criança está inserida.


Comecei a observar a minha  atuação no tempo da brincadeira e não interromper bruscamente: avisar um pouco antes que dali a pouco precisa guardar, respeitar o tempo das brincadeiras, priorizar essas investigações e também guardar para continuar no outro dia. Participar, observar e compreender a brincadeira.


Organizar materiais para as crianças que incentivam a imaginação, um recurso sem ser o brinquedo consumido frequentemente - que á abertura para ser o que quiser e fortalece o imaginário, cria muitas narrativas cada vez que se depara com os objetos. 


Arte que ilustrou um registro da minha experiência escola.

Observar as brincadeiras de casinha me fez olhar para meu grupo reconhecendo que eles não usam o modelo de casinha tradicional, porém usam a casinha como um lugar acolhedor, de encontro, de união, de esconderijo, de conforto, de centralização e criam poções, igrejas, restaurantes, famílias de animais, clubinho, circo etc. 

Entrar na brincadeira, sintonizar-se, dar boas ideias, contribuir, estar disponível, observar para entender melhor e conhecê-las ainda mais são intervenções indiretas. Elas não restringem pelo contrário sintonizam, dialogam com o brincar sem direcionar.

Neste ano (2013) deixei de fazer brincadeiras que planejei para validar as brincadeiras que as crianças queriam me ensinar. Ora ensinavam, ora aprendiam, ora escolhiam, ora pesquisávamos em livros etc.

Uma dos momentos marcantes foi uma relação que fiz ao assistir um vídeo sobre a brincadeira do boi no maranhão em um encontro com o Território do Brincar.

https://www.youtube.com/watch?v=yLo-3yKaslA

Nesse dia, o papel do Mestre me remeteu imediatamente ao qual deveria ser o papel do professor: na brincadeira do boi o Mestre não ensina, ele faz junto como disse Tião Carvalho. Ele não tem pressa, não impõe, deixa acontecer no seu tempo, dá dicas, vê o potencial de cada um e trabalha nele. Não há preocupação com o conteúdo e sim a consequência do processo de viver e experimentar assimilando e interiorizando. Considerando o potencial de cada um deixando-o desenvolver-se e não uniformizando, não há um único caminho. Há liberdade de estar ou não estar, confiança na criança.

Outro exemplo relacionado a este, encontrei no texto Náufragos e Piratas do Aprendizado do Gandhy Piorski. 


http://www.territoriodobrincar.com.br/blog-criancas-no-brasil/naufragos-e-piratas-do-aprendizado

E acho que são exemplos como estes que nos fazem refletir cada vez mais sobre como estamos formando nossas crianças. Será que estamos praticando o que realmente acreditamos ou ficamos somente no discurso com uma prática engessada?

Percebo em mim uma transformação maravilhosa e gradual que une teoria e prática, tanto pessoal quanto profissional. 

Obrigada Território do Brincar e Instituto Brincante por fazer parte dessa transformação!



Nesse ano (2014), o documentário Tarja Branca me proporcionou retomar essa reflexão e ampliá-la, foi muito emocionante assistir os pesquisadores que fizeram parte da minha formação defendendo o brincar e multiplicando essa mensagem para todos, além de estendê-la até a idade adulta, o que é muito importante.

Tive a sensação e a certeza de que estou no caminho certo, que meu trabalho é meu brincar e sou muito realizada como educadora: minha criança é preservada dentro de mim!

Continuo com meus estudos  sobre o brincar e a cultura brasileira, com observações das várias linguagens cotidianas das crianças em relação ao que elas querem me dizer e quais são suas necessidades, para que eu possa propiciar o meu melhor. Agora falta a próxima viagem: de Paraíba a Sergipe.




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